Série – O Enigma das Arcas – Ato III

Ato III
Até que a Morte nos Separe

Liandra fitou-se mais uma vez no reflexo proporcionado pela luz da vela de encontro à única janela de vidro da casa em que se encontrava. Alisava com as mãos pequenas e brancas cada dobra do longo vestido, até que tudo estivesse aparentemente impecável. Cantarolava baixinho, apenas o suficiente para se fazer ouvir, mas sua atenção estava voltada para o quarto abaixo, na cozinha.

Havia preparado uma quantidade razoável de cozido de lebre, toicinho e peixe. Também, como de costume, preparara um chá forte de erva de cheiro e fervido a água do banho. Tudo estava pronto. Pela janela, pode ver que com as estrelas seu marido regressava. Trazia nas costas o machado com o qual trabalhava, como lenhador nas florestas de Tollon. Encabulada, tirou rapidamente o vestido e o escondeu no armário velho do quarto. Desceu as escadas a tempo de vê-lo entrar em casa.

- De novo com aquele vestido velho? – brincou Dario abrindo os braços.

- Ele me traz ótimas lembranças de nosso casamento – respondeu sorrindo. Liandra correu ao seu encontro e com um pequeno salto, abraçou-o e lhe beijou a face. Com uma cara de desagrado, Dario ergueu levemente o queixo. Liandra sorrindo beijou apaixonadamente o marido, em uma troca de carícias que perdurou ainda por alguns minutos. Enfim, ainda abraçados, conversaram sobre as amenidades do dia.

Esta rotina diária era uma constante nos últimos seis meses, após o casamento de Liandra e Dario. Ele, um lenhador por vocação. Um machado fora o primeiro presente que recebera dos pais, já aos oito anos. Ela, artesã, esculpia em madeira e era apaixonada por ela. Via formas e movimentos em raízes e velhos troncos, e tirava deles a inspiração para suas obras.

A casa de Liandra tornara-se relativamente conhecida em Follen devido às esculturas que preenchiam o pequeno jardim. Na verdade, ela própria ganhava muito mais dinheiro vendendo suas peças aos nobres do que o marido como lenhador. Porém, ele tinha muito orgulho de seu trabalho, e também o paradigma de que o homem deve sustentar a casa. Por isso, ela jamais exigiu que ele abandonasse seu trabalho, e ele tampouco fez qualquer menção a isso.

Sentaram-se despreocupados à mesa e comeram o jantar preparado por ela. No decorrer da refeição, trocaram olhares cúmplices que denunciavam o amor que sentiam um pelo outro, e após um banho quente na tina d’água, subiram em direção ao quarto. Amaram-se com o fervor dos apaixonados, e exaustos, cochilaram nos braços um do outro. Sobre a cômoda, o embrulho adquirido por Dario naquela manhã aguardava o despertar do casal.

Liandra provavelmente nunca mais esqueceria daquele presente.

(…)

Correndo o mais rápido que podia através das raízes e do lodo que formava o mangue no lado norte de Ciela, um homem sujo e coberto de terra fugia por sua vida. Em seu encalço, quatro dos homens da milícia da Cidade Tripla avançavam com a determinação de formigas. Traziam ainda um cão que saltitava através das poças e atoleiros com muito mais facilidade do que os soldados e suas armaduras.

Com uma certa dianteira, Garlor Presas de Prata dava-se o luxo de escolher sua rota de fuga. Havia marcado aquele caminho mentalmente, nas dezenas de vezes que precisou dele para escapar. O pântano formado pela curva do Rio dos Deuses em meio ao mangue ocultava suas pegadas, e o fedor pútrido que brotava da decomposição natural dos resíduos que ali vinham encontrar descanso faziam o mesmo com o seu cheiro.

O Pântano era um desafio e tanto para os maiores rastreadores, e uma benção para bandidos procurados como Garlor. Quase tudo o que entrava ali sumia, como por mágica.Além disso, as dificuldades do terreno logo acabavam com a vontade dos captores, que abandonavam as buscas e regressavam sujos e exaustos. Chapinhou por mais alguns metros até alcançar uma árvore de galhos grossos e retorcidos, caída em meio ao pântano. Sob ela, emborcado e afundado na lama em quase toda a sua extensão, um pequeno navio pesqueiro escorava o peso do tronco, impedindo que ambos afundassem completamente.

Garlor procurou em torno com os olhos afiados, e sorrindo, desviou-se de uma galhada coberta de espinhos e meteu seu corpo magro em uma fresta fina na embarcação. Ocultando-a em seguida, respirou enfim aliviado. Estava novamente em segurança. Tateou no escuro até o lampião, e com mãos hábeis, não tardou a iluminar todo o lugar com uma luz pálida, mas reconfortante.

O interior do casco estava seco e limpo. O resultado dos últimos saques havia sido empilhado perfeitamente em pequenos fardos, prontos para serem transportados ao menor sinal de adversidade. Uma rede, uma bacia com água e um arpão na parede ao fundo completavam todo o mobiliário do lugar. Garlor depositou o novo saque sobre a pilha, jogou a roupa imunda na bacia que logo ficou cheia de lama e deitou-se nu sobre a rede, balançando suave, buscando descansar o corpo.

No mesmo instante, sentiu o gélido toque de uma lâmina em sua garganta, apesar de não poder vê-la. Alguns trapos caíram sobre seu corpo, e estranhamente, um gato preto saltou através da abertura no teto, sobre a pilha dos saques e permaneceu ali, lambendo o próprio pelo. Garlor fez menção de se mover, mas a lâmina deslizou lentamente sobre a carne, e ele sentiu o fino fio de sangue correr por seu pescoço.

- Sabe muito bem que não vai sair dessa vivo, seja lá quem for… – ameaçou com a fúria estampada no rosto. Uma risada contida escapou do atacante, e em breve a gargalhada poderosa de Enemaeon preencheu toda a sala principal do navio. O punhal regressou a bainha, e o mago, desfazendo a magia de invisibilidade que o ocultava, chutou a pilha de tesouros assustando o gato e o assassino.

- Tem trabalhado bastante, pelo visto.

- Seu grande bastardo! – praguejou Garlor levando as mãos ao corte na garganta – Que tipo de piada foi essa? E como foi que chegou aqui?

- Um amigo seu taverneiro foi bastante solícito em me informar onde você escondia essa casca de noz. Sua vida custou apenas dez tibares, sabia?

- Conversa – praguejou Garlor – Ninguém sabia deste lugar. Apenas alguém que já conhecia o truque poderia me encontrar aqui. Gastou seu dinheiro apenas para saber que eu estava na droga deste mangue.

- Pois dentro em breve você vai poder trocar a umidade e o fedor dos mangues de Tollon por um clima mais condizente a sua posição.

- Esqueça. Prometi a mim mesmo nunca mais me envolver com você e seus negócios. E não pretendo voltar atrás em minha palavra.

- Para um clérigo de Hyninn, você está bastante adverso à possibilidade de roubar alguém.

- Hyninn? – respondeu o clérigo sorrindo – Nunca ouvi falar. É algum novo tipo de dança?

- Esta piada perde a graça depois das primeiras oitenta vezes que se ouve. – respondeu Enemaeon arremessando-lhe um pequeno saco de tecido escuro. No interior, Garlor encontrou um fragmento de ouro, aparentemente de um antigo medalhão.

- Isso é…

- A chave de Templo antigo, perdido no Deserto da Perdição.

- Já deve ter sido saqueado a esta altura. Geralmente os tesouros em templos abandonados já sumiram quando enfim temos conhecimento da existência deles.

- Não este. Ele tem um motivo especial para continuar oculto. Os próprios deuses o quiseram assim.

- Não contrario deuses maiores a pelo menos três anos – falou Garlor suspirando.

- Nunca é tarde para recomeçar – respondeu Enemaeon – Quando podemos partir?

- A maré sobe dentro de três horas. Se me der licença para me vestir e soltar o barco, estaremos a caminho antes de Tenebra dar lugar ao novo dia.

(…)

As mãos de Liandra novamente tocavam seu vestido de noiva, mas agora, ele estava sujo, manchado de sangue. Em seu pescoço, o presente que recebera de Dario reluzia ante a luz das velas. Um pequeno fragmento de ouro, parte de um medalhão maior. Sobre a cama, o marido jazia inerte, com o machado enterrado no crânio.

Continua…

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Sobre o Autor

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.