Série – O Enigma das Arcas – Ato IV

Ato IV
Rumo a Cidade Flutuante

Um casco de navio emborcado e a deriva era tudo o que um observador desavisado poderia acreditar estar vendo diante da passagem do Serpente. E esta era exatamente a intenção de Garlor ao construí-lo. Coberto de lodo e liquens, a madeira escura semi-apodrecida da quilha avançava parcialmente afundada nas águas profundas do Rio dos Deuses. Mas em seu interior, o clérigo manobrava protegido e seco, observando sua rota através de um espelho d’água magicamente preparado.

- Foi um bom trabalho, este que você fez aqui, Enemaeon.

- Fala do espelho? Uma contribuição pequena se comparado com o todo deste navio. Ele é digno de pertencer a um clérigo da trapaça.

- Investi dez longos anos nele – falou Garlor visivelmente orgulhoso – Dezoito toneladas de madeira e ferro, movendo-se levemente através das profundezas graças aos elementais do ar que aprisionamos naquele artefato em Tyrondir.

- Ainda não acredito que aqueles clérigos entregaram aquilo de boa vontade para você.

- Bem, eu os enganei – disse Garlor entre uma gargalhada e outra – Um pouco de pirotecnia de sua parte e os clérigos acharam que eu era um enviado dos deuses. Dariam-me suas filhas por uma noite se eu pedisse.

- Se bem me lembro, você dormiu com elas mesmo sem pedir coisa alguma.

- Detalhes – respondeu o trapaceiro com uma piscadela – Sim, é um bom navio. Pena que só eu e você gostamos tanto dele. Os navios mercantes o odeiam.

- Surgindo do nada, afundando o oponente e recuperando os tesouros do navio submerso. Fica bastante claro para mim o motivo deste desafeto por parte dos mercadores. E para as autoridades, tudo isso não passa de entulho.

- Ou uma fera marinha. Os boatos estão começando a ficar mais criativos. Existe até uma recompensa para quem abater o monstro. Dez mil tibares.

- Oitenta mil tibares, na verdade Garlor – falou Enemaeon batendo-lhe nos ombros com o seu cajado de estimação, que carregava consigo o tempo inteiro. Podia parecer tolo a princípio, mas sem ele, Enemaeon simplesmente não conseguia fazer magia alguma. Era uma espécie de fetiche mágico, um ponto de concentração para que seu focus não ficasse disperso. Truque este sugerido por um de seus professores na Academia, anos antes, e que sempre apresentou bons resultados.

- Oitenta? Não chegava a tanto a última vez que ouvi.

- É claro que chegava, e você estava ciente deste valor. Tem tanto medo assim que eu lhe traia por causa de um valor tão ridículo sobre a sua cabeça? Há pelo menos três vezes esse valor nos porões. Sem contar os tesouros.

- Você já fez coisa pior no passado, Enemaeon. – foi a resposta de Garlor, e aquilo encerrou o assunto pelo menos por algum tempo.

(…)

O vulto branco e carmesim que era Liandra corria através das planícies repletas de bosques e pequenas florestas de Tollon. Alguns lenhadores que a avistaram correndo em lágrimas através da mata espalharam os boatos sobre uma Noiva Maldita, salpicada de sangue que trazia a morte. Estranhamente, pelos lugares que Liandra passava, realmente a morte se tornava mais palpável, apesar de manifestar-se apenas indiretamente. Um lenhador era atingido por uma árvore que caía, um doente finalmente sucumbia, uma complicação no parto trazia ao mundo uma criança morta.

Ela mesma não compreendia os motivos daquelas mortes, mas sabia que era a responsável. Também não sabia o que a levava a correr como se tudo o que devesse fazer fosse apenas isso. Avançar sem rumo, levando a morte e a dor ao mundo. Matando através dos bosques. Matando quem amava. Sangrando por dentro, mas sorrindo por fora.

Foi então que ouviu a música. Distante, muito além das árvores. O som a envolvia e a penetrava, através da pele e de seu sexo. Devorada, envolvida, Liandra correu ainda mais. A pele frágil ignorando os cortes e os espinhos, o vestido erguido até as coxas se esfacelava nos galhos e arbustos do caminho.

Conforme se aproximava, além da música, uma voz macia e melancólica passou a toca-la. Não a reconheceu, mas apaixonou-se por ela. Da mesma forma intensa que amara seu marido morto há poucas semanas. Sentiu-se suja por isso, e decidiu que deveria matar quem quer que fosse até se sentir limpa daquilo tudo. Até estar enfim em paz.

Sobre a colina, seu alvo coberto de negro, com longos cabelos embranquecidos agitados pela brisa da tarde, aguardava. Em suas mãos, um alaúde igualmente negro era dedilhado com perfeição. Sua platéia silenciosa arfava a cada nova nota, a cada sílaba por ele cantada. Liandra viu dezenas de outras como ela, vestidas de branco, salpicadas de sangue. A ira incontrolável desapareceu de seu âmago ao ouvir as palavras que o bardo declamava.

“Seco de inspiração, mas não de sentimento pelas tristezas que o convém tanto para assunto de poemas, o medíocre poeta o seu estilete molha, preparando-se…”. Músicas de morte, poemas fúnebres de um futuro próximo. O bardo sorriu com sua boca sem fundo, e os olhos negros como a noite, davam boas vindas ao seu séqüito profano. O som de sua própria gargalhada uniu-se ao coro de lamentações das noivas, e ao som tranqüilizador do alaúde.

(…)

- Uma coisa que não ficou exatamente clara para mim em Ralcazar foi a fama que lhe persegue agora – comentou Enemaeon trazendo novamente a conversa com Garlor à tona. Haviam percorrido quase trinta quilômetros através da foz do Rio dos Deuses, aproximando-se do segundo Priorado pertencente à Ciela, a cidade flutuante de Paltar. O clérigo olhou Enemaeon de soslaio, e com um suspiro respondeu.

- Matei muita gente nos últimos anos, velho amigo. Muito mais que o necessário.

- Por minha culpa, suponho. – falou o mago num murmúrio. A resposta de Garlor veio ainda mais baixa, engolida pelo som das ondas contra o casco do navio.

- Sim.

- Naquela noite, em Deheon, eu não pretendia…

- Não, eu sei que não – interrompeu Garlor – E é por isso que não o culpo. Sabíamos que haveria luta. Todos concordamos. Mas não consigo mais dar valor a vida. Desde que Sandra morreu… entende? Se ela teve que morrer, porque poupar qualquer um?

As memórias voltaram a mente de Enemaeon. Lembrou-se de detalhes a muito enterrados sobre aquela noite na taverna. Havia recém abandonado a Academia Arcana, expulso por mau comportamento e por trabalhos não autorizado no laboratório. Envolveu-se com o grupo de bandoleiros do qual Garlor Presas de Prata e Sandra Halden faziam parte. Juntos, saquearam e mataram por um longo tempo, até serem emboscados pela milícia imperial.

Quase todos os bandoleiros foram mortos ou aprisionados, sendo que do grupo com quase doze homens, apenas três conseguiram escapar. Feridos e sem nada além das vestes do corpo vagaram a esmo através das florestas, comendo capim e bebendo de poças criadas pela chuva até alcançarem uma taverna a beira de estrada. O plano parecia simples. Invadir, render os donos do lugar, roubar apenas o que precisavam e partir.

Inicialmente tudo havia dado certo, mas em certo momento, um dos homens presentes resolveu reagir, avançando contra Enemaeon. O mago não era capaz de fazer frente contra um oponente direto em combate físico, e Sandra partiu ao seu auxílio, dando as costas a um bêbado. Uma garrafa quebrada, um bêbado assustado e um golpe de sorte. Esta foi a combinação que pôs fim à vida de Sandra Halden.

Naquela mesma noite, após saquear a taverna, haviam amarrado todos os que lá estavam e incendiado o lugar. Ficaram ali, assistindo com lágrimas escorrendo fartas pelos rostos sofridos, até o último grito de agonia dos queimados fosse engolido pelo crepitar das chamas. Não que aquilo fosse trazer sua companheira de volta. Tampouco apaziguar a culpa que sentiam.

- Não espero mais pelo golpe pelas costas, Enemaeon – disse Garlor por fim – Os mato antes. Dormindo às vezes, para evitar qualquer imprevisto.

O mago sentia-se tão responsável por aquilo tudo que não teve forças para falar mais nada. Nem sobre a missão que colocaria em prática nos próximos dias, tampouco pelo objetivo egoísta que o motivava. Viu de relance, através do espelho d´água, que os telhados vagabundos e sujos de Paltar já eram visíveis, e se preparou para encontrar-se com o terceiro membro de seu grupo de busca.

Continua…

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Sobre o Autor

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.