Série – O Enigma das Arcas – Ato V

Paltar

O Serpente foi deixado a pelo menos trezentos metros do destino final de ambos, em uma profundidade que impediria algum acidente indesejável com os muitos barcos que cruzavam o Rio dos Deuses àquela hora da manhã. Após preparar um bote, Enemaeon e Garlor puseram-se a remar em silêncio. Aos pés destes, o gato preto do mago tremia a cada respingo que, por acidente, atingia o interior da embarcação. Apesar das negativas e protestos do necromante, o bicho havia subido a bordo, decidido em acompanhar a demanda.

- Nunca vi um gato tão corajoso – brincou Garlor espirrando propositalmente água no bichano que miava desgostoso, encravando as unhas ainda mais na madeira – Ele deve gostar muito de você pra lhe seguir assim.

Deixando os remos de lado, Enemaeon olhou para os olhos felinos do animal e sentiu um arrepio de pavor percorrer-lhe a espinha. Pegou o gato de pronto em seus braços, e após uma leve carícia, sorriu tristemente para o amigo. – Na verdade, ele não tem muita escolha. No fundo, acho que ambos nos detestamos.
- Achei que gostasse dele. Porque o cria então? Solte por ai.
- Já fiz isso, várias vezes, aliás. Mas ele sempre retorna – falou colocando-o na mesma altura de seus olhos. Instintivamente, o gato encolheu-se em suas mãos, afastando o próprio corpo o melhor que podia da água.
- Você não pretende…

Um leve aceno de cabeça por parte de Enemaeon precedeu o mergulho desajeitado do gato no Rio dos Deuses, alguns metros de onde ambos se encontravam com o bote. Os dois gargalharam um pouco, descontraindo-se por alguns momentos, e esquecendo-se do que iriam fazer dentro em breve. Invariavelmente, as risadas morreram quando assistiram a cabeça felina ressurgir sobre a água e nadar obstinadamente atrás deles.

- Isso foi maldade, Enemaeon – falou Garlor sério.
- Sim – respondeu o mago arrependido – Eu sei

(…)

O Priorado de Paltar, segundo entreposto que junto com Racalzar e Dahar formavam a cidade tripla de Ciela, era ainda mais decadente do que seus bairros irmãos em terra. Construído sobre palafitas no meio do Rio dos Deuses, pertencia, oficialmente, ao reino de Collen. Tanto que os membros da família Couthbert e seus vassalos eram maioria absoluta naquele lugar. Desde os principais comerciantes proprietários de tavernas, prostíbulos ou estalagens, até o Prior responsável por aquela parte da cidade, Nestor Couthbert.

Não era de se estranhar então que mesmo tão longe de seu próprio reino, muitos dos que vagavam através dos pontilhões e atracadouros que formavam Paltar possuíssem os mesmos olhos desiguais que tornavam os collenianos famosos. Inclusive o garoto que auxiliou o bote que trouxe Enemaeon e Garlor a aportar os possuía. Um negro, com um belo tom prateado no entorno, e o outro castanho.

Seu nome era Rupert, órfão de pai e mãe e que se virava fazendo pequenos bicos na região portuária. Além dos olhos e do semblante esperto, trazia na fronte uma cicatriz que subia através do crânio, deixando boa parte da cabeça com os cabelos ralos e desgrenhados, devido à ferida. Garlor um tanto enojado com a incômoda aparência do menino desejou dispensá-lo imediatamente, mas Enemaeon insistiu em manter um guia.

- O que foi isso na sua cabeça? – enfim perguntou Enemaeon para Rupert, que caminhava um pouco à frente de ambos com o gato preto molhado, lambendo-se nos braços.
Rupert sorriu, afagando o próprio crânio.
- Um velho bêbedo que me criou por um tempo. Acertou-me com uma cadeira quando reclamei da comida que fazia. E por muito pouco não morri.
- Por que não coloca um gorro ou boné para esconder um pouco isso então? – reclamou o clérigo. Enemaeon não disse de pronto, mas sentiu certo incômodo diferente no ar pesado e carregado de peixe. Uma tempestade, talvez. Ou algo mais.
- Porque isso me lembra de não confiar nos outros, e de não reclamar de barriga cheia. – respondeu o menino piscando. Garlor agora não conseguia disfarçar certa empatia pelo garoto. O mago, entretanto, continuava distante.

- Bem, se me disserem quem estão procurando e me pagarem um almoço de peixe, posso procurar o sujeito pra vocês.
- É uma boa pergunta – falou Garlor fitando o amigo – Quem viemos buscar nesse fim de mundo esquecido pelos deuses?
- Marquei um encontro com Felrond aqui – respondeu saindo do transe motivado pelos pensamentos desconexos em que se encontrava – É um elfo, com um jeito bastante peculiar, veste-se como um…
- Não acredito que o terceiro membro é Felrond – disse Garlor levando as mãos até o rosto – Por favor, diga que isso é algum tipo de piada.
- Sei de quem estão falando – interrompeu Rupert – Ele está numa taverna aqui perto desde que chegou, a uns três ou quatro dias. Cabelos negros com pedrinhas, vestido como um pirata.
- É o próprio – confirmou Garlor com um muxoxo – Por que o Felrond? Não precisamos dele.
- Faz parte do protocolo – explicou Enemaeon já seguindo Rupert de perto através das passagens imundas de Paltar – Todo grupo precisa de um clérigo, um ladino, um mago e…
- E um idiota – completou Garlor pensando quais seriam os desígnios de Hynnin para que ele se encontrasse numa situação como aquela. Provavelmente, o deus dos ladrões estaria rindo.

(…)

Um cortejo fúnebre avançava solenemente através das grutas e caminhos sinuosos da Caverna do Saber, em Yuden. Além de alguns clérigos e monges que ali residiam, também acompanhava a comitiva um clérigo guerreiro de Gallien, de nome Villvert. A aparência embrutecida do seguidor de Keenn – com a pesada armadura negra coberta de troféus das inúmeras batalhas que já presenciara – contrastava com os semblantes esguios e curvados pelas horas de leitura e estudo dos devotos da deusa do conhecimento. Eram como água no óleo, obrigados a conviverem apesar de se odiarem mutuamente.

O responsável pelo cortejo, um dos clérigos mais velhos e conseqüentemente sábios de toda a Caverna era Cedric. Um velho alquebrado, praticamente sem cabelos e dentes que já contava com quase oitenta anos, sessenta deles de devoção e honra a Tannah-toh.

Mesmo Villvert, com sua truculenta cultura de matar primeiro e questionar depois, sabia respeitar o poder que emanava daquele homem, e as paredes do entorno em que ele se encontrava. Viver ao lado de um sumo-sacerdote era uma honra que poucos clérigos podiam desfrutar. Ele mesmo jamais vira Arsenal, o clérigo máximo de sua ordem, mas as histórias que o precediam faziam parecer melhor desta forma.

- Espero que entenda que minha presença aqui é inevitável, Cedric – falou o guerreiro com sua voz direta e retumbante, destoando ainda mais do clima de murmúrios e formalidades que permeavam aquele templo – O que este homem sabe pode nos dar a chave para o que aconteceu em Fehvar.
- Não me oponho à presença de nenhuma alma atrás de conhecimento, meu bom Villvert. Apenas peço que tenha modos. – foi a resposta de Cedric. O guerreiro encarou aquilo como um pedido, e não como uma ordem, e seguiu o cortejo até os portões que os separavam do Helladarion – o artefato-sacerdote que guardava toda a sabedoria dos clérigos da deusa Thannah-toh acumulados ao longo das eras.

- Peço que aguarde aqui, por favor – falou Cedric, didático – Iremos fazer a passagem da alma, e é algo que apenas os servidores da Deusa podem presenciar.
- Não me oponho a seus rituais – respondeu Villvert – Sei que terei as respostas que busco em breve.

Cedric apenas assentiu, e o cortejo seguiu caverna adentro, até o Helladarion. O artefato que respondia qualquer pergunta, assim como os clérigos ali jamais poderiam mentir. Se por um lado, possuir uma arma como aquela sob controle era vantajoso para Yuden, por outro, era igualmente perigoso. Pois o Helladarion sabia demais, sobre as forças e fraquezas de todo o reino coletado por seus clérigos mortos ao longo dos anos, e divulgaria tal coisa para o primeiro que perguntasse. Uma faca de dois gumes.

Quarenta minutos se passaram, deixando Villvert impaciente. Quando finalmente pode entrar no recinto, evitou deixar transparecer a admiração que sentia pela força que emanava do globo cristalino que descansava sobre o pedestal de metal dourado. Os clérigos se curvaram respeitosamente, mas o servo de Keenn permaneceu imóvel. Sombras e luzes dançavam no interior do artefato que era o Helladarion, e ele então falou com uma voz mais sentida do que ouvida realmente. Pura, branca e melodiosa.

- Veio em busca de respostas, Villvert de Gallien.
- O último clérigo que lhe trouxeram há pouco – começou Villvert sem demonstrar o respeito esperado para a ocasião – Foi morto, junto com todos os outros vinte habitantes do vilarejo de Fehvar, a mais de quatro dias. Desejo saber quem foi o culpado, e o que ele queria.
As lembranças que dançaram na mente de cristal do artefato eram quase palpáveis. Podia-se ver as imagens e sons que acompanharam os últimos instantes da vida daquele homem e de todo o vilarejo. Então, novamente, o Helladarion falou.

- Blanchard, clérigo de Thannah-Toh, morreu sem ver o rosto do seu algoz, ou saber o motivo para sua morte. Há apenas uma vaga lembrança dos momentos que precederam seu fim, e uma música, que preenchia o mundo.

Villvert, incomodado, quase esmurrou o artefato de frustração, ao saber que aquele maldito clérigo, sua viagem até a Caverna e toda a espera e formalidades foram completamente inúteis. Só não o fez por ter plena ciência de que morreria antes de tocar a fronte aparentemente frágil do artefato. Pensou em sair, e buscar outra pista que lhe guiasse atrás dos assassinos, mas uma última curiosidade lhe voltou à mente.

- A música. – pediu Villvert – Como ela era.

Novas luzes e fumaças esvoaçaram no interior do Helladarion, e então a voz limpa e sem emoção do artefato começou a cantar.

Continua…

Encontre o restante da Série clicando aqui.

Compartilhe esse artigo:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • email
  • Ping.fm
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • Tumblr
  • Twitter
  • Live
  • MySpace
  • PDF
  • Reddit
  • RSS
  • Yahoo! Bookmarks

Artigos relacionados:

  1. Série – O Enigma das Arcas – Ato VI
  2. Série – O Enigma das Arcas – Ato IV
  3. Série – Enigma das Arcas – Ato VII

Sobre o Autor

Marlon "Armageddon" Teske é de Timbó, Santa Catarina, onde vive isolado do resto do mundo traçando planos de conquista enquanto cursa uma faculdade de regente do universo por correspondência.