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	<title>.20 &#187; Religião</title>
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		<title>Menos deuses e mais religião</title>
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		<pubDate>Tue, 04 May 2010 00:48:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Shido Vicious</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Deuses]]></category>
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<p>Abra seu livro de cenário de fantasia preferido. Não importa o sistema. Há algum tipo de arquétipo de sacerdote ou religioso? Salvo raríssimas exceções, sim. Somos informados a respeito do deus ou deuses que esse tipo de personagem venera? Sim novamente. E ficamos sabendo <em>um bocado</em> sobre esta ou aquela deidade &#8212; sua arma preferida, aparência, os outros deuses de quem ela gosta, aqueles para quem ela faz beicinho e diz &#8220;não brinco mais,&#8221; etc. Em algum suplemento, é bem possível até encontrar a <em>ficha de personagem</em> da divindade. É bastante material a respeito de entes&#8230; geralmente <strong>distantes</strong>, com quem apenas muito <strong>raramente</strong> os personagens travam interação <strong>direta</strong>. Sobre as <strong>religiões</strong> erigidas em torno destes tais deuses, isto é, sua estrutura eclesiástica, rituais, dogmas e práticas, elementos com os quais se esperaria ser <strong>comum</strong> uma interação <strong>direta</strong>, todavia, muito <em>pouco</em> nos é informado. Por quê?</p>
<p><span id="more-3801"></span>Eu sei que isso vai parecer perseguição, mas aponto o <em>Dungeons &amp; Dragons </em>como um dos culpados por essa inversão de prioridades. Cito parte do texto sobre a classe Clérigo do <em>Dungeons &amp; Dragons Rules Cyclopedia</em>, de 1991.</p>
<blockquote><p><em>The D&amp;D game does not deal<br />
with the ethical and theological beliefs of the<br />
characters in the game.</em></p></blockquote>
<p>Em bom português: <em>o jogo de D&amp;D não lida com as crenças éticas e teológicas dos personagens no jogo</em>.</p>
<p>Por que isso? Se não se quiser religião no jogo, penso em uma estratégia muito simples &#8212; não mencione personagens religiosos em primeiro lugar. Se a <em>função</em> do clérigo se resume a ser um médico de batalha, por que não um médico de batalha logo de uma vez? &#8220;Científico&#8221; demais? Faça dele um &#8220;mago branco&#8221; ou coisa semelhante &#8212; a série <em>Final Fantasy</em> tem feito isto faz um bom tempo, sem perda alguma de qualidade.</p>
<p>Mas, para bem ou para mal, os personagens religiosos estão aí. Já que foi adicionado o elemento religioso ao que poderia muito bem ser um <em>white mage</em>, por que tal esfera, que encerra potencial, não é melhor explorada? Seria acanhamento, um receio &#8220;pisar em calos&#8221;?</p>
<h3>Pisando em ovos para falar de religião</h3>
<p>Nunca vi assunto tão espinhoso quanto religião. Conforme a situação, é pior do que falar sobre times de futebol. Assim sendo, é melhor não nos aprofundarmos e evitar confusão, certo? Não. Todo o tipo de subterfúgio já surgiu para proteger assuntos ligados ao conceito de divino de qualquer análise séria: quantas vezes você já não ouviu se tratar de &#8220;uma questão de fé,&#8221; e que a razão seria, portanto, &#8220;incapaz&#8221; de chegar a qualquer conclusão a respeito do assunto?</p>
<p>O RPG é velho conhecido da controvérsia religiosa, com sacerdotes atacando o jogo como &#8220;demoníaco&#8221; e por aí vai. Talvez o assunto não seja aprofundado pelo receio de causar ainda mais controvérsia. Não vejo razão para tal: um crente moderado, lúcido, é perfeitamente capaz de reconhecer o conteúdo de um livro de RPG como aquilo que realmente é: <strong>ficção</strong>. Nada mais, nada menos. Já o crente paranóico e delirante verá chifre em cabeça de cavalo sempre e toda vez. Mesmo que o livro não fale uma linha sobre religiões, só a presença de uma seção de &#8220;Divindades,&#8221; com uma listagem de diversos deuses falsos (não por serem fictícios, mas por serem deuses que não o <em>deles</em>) já pode ser suficiente. E mesmo que se removam todos os indícios de deuses ou qualquer coisa remotamente ligada a eles, ainda restará a magia e, todos sabem, &#8220;feitiçaria&#8221; é &#8220;demoníaca.&#8221;</p>
<p>(Ora, até mesmo um livro inócuo &#8212; mas muito bacana, li e recomendo &#8212; como <em>Harry Potter</em> &#8220;promove a bruxaria&#8221; na cabeça destes lunáticos. Bruxaria, aliás, que é tão real e tangível, para eles, como &#8220;influência demoníaca&#8221; e coisas do tipo. Nós jogamos jogos de fantasia &#8212; eles, ao que parece, <em>vivem</em> fantasia, em um mundo cheio de demônios à espreita e &#8220;forças do mal&#8221; prontas para lhes corromper a alma.)</p>
<p>Ainda que a canção <em>Ask</em> dos <em>Smiths</em> possa começar afirmando que &#8220;timidez é legal,&#8221; somos imediatamente informados que ela &#8220;pode nos impedir de fazer as coisas que gostaríamos.&#8221; Acredito ser o caso aqui &#8212; a maioria dos elementos de fantasia já constitui a &#8220;marca da besta,&#8221; e, assim sendo, vejo duas direções. A primeira: eliminar todo e qualquer elemento que o religioso possa achar ofensivo. Quem me conhece sabe que, ao vivo, eu seria incapaz de propor uma coisa dessas com uma cara séria. Temos a outra direção, em que timidez não é legal &#8212; se a conexão pé-jaca se mostra inevitável, você vai realmente apenas pôr o dedão do pé nela, como se estivesse estimando a temperatura da água de uma piscina? Não seja esse tipo de pessoa. Por mim, corro para pegar impulso e <em>mergulho</em> na jaca, ambos os pés, sem medo de chafurdar na polpa.</p>
<p>Até porque, o &#8220;pivô do mal&#8221; em discussões acerca do tema é a existência ou não da divindade em questão que a religião prega como existente. Não chegaremos sequer perto disso &#8212; não por acanhamento, mas por ser irrelevante. De deuses em si, os RPGs já estão bem servidos. Discutiremos, todavia, os elementos <strong>tangíveis </strong>de uma religião. Seus dogmas (provenientes de escrituras sagradas escritas por mãos <em>humanas, demasiadamente humanas</em>), seus rituais, costumes, estrutura eclesiástica&#8230; Estes não são uma questão de fé &#8212; são estruturas sociais e de conhecimento como qualquer outra obra humana e, por conseqüência, perfeitamente passíveis de observação e discussão.</p>
<p>Caso formos obrigados a pisar em ovos, seremos igualmente obrigados a esmagá-los sob a sola de nossos pés.</p>
<h3>Por que religiões são desejáveis?</h3>
<p>Porque religiões são ótimas em <strong>conflito</strong>. Conflito é gasolina de aventura. As religiões tendem a não largar o osso quando o assunto é defesa de seus dogmas, mesmo quando estes são provados obsoletos ou substituídos, no conjunto de valores da sociedade, por coisa mais eficaz. Ou você acha que não há quaisquer conseqüências nefastas na postura do <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Bento_XVI"><strong>Papa Palpatine</strong></a> em condenar métodos contraceptivos que são comprovadamente eficazes tanto no controle de natalidade quanto na prevenção de doenças? E isto só para citar uma das posturas <em>menos</em> controversas. Esta situação, se transposta para um ambiente de fantasia, é capaz de garantir a combustão do motor de uma aventura inteira. Detalhes do mundo de jogo são também bons amigos da <strong>interpretação</strong>.</p>
<p>Mesmo que <em>D&amp;D</em> seja um RPG claramente voltado para lutas, é uma inverdade pensar que jogos sob esse sistema (e cenário implícito) careçam de estórias complexas e bem elaboradas, e que os personagens não tenham interesse algum senão colecionar classes de prestígio e acumular quinquilharias mágicas que dão bônus. Estórias de qualidade e personagens bem construídos podem surgir daí, e o fazem.</p>
<p>Há também os sistemas como o <a href="http://www.dot20.com.br/2010/03/23/dossie-fate-3-0/"><strong>FATE</strong></a> e o <a href="http://www.dot20.com.br/2010/04/03/dossie-sistema-pdq/"><strong>PDQ</strong></a>, em que ações dos personagens e estrutura da ação dependem diretamente de elementos narrativos, e nesses casos, material descritivo é ainda mais importante. E mesmo que isto seja mais uma &#8220;regra não escrita&#8221; em <em>D&amp;D</em>, é muito comum que jogadores deste sistema também atribuam igual relevância à interpretação e às descrições que a auxiliam. Seja qual for o caso, tais informações, normalmente vistas como  <em>fluff</em>, ou triviais<em>, </em>tornam-se importantes e relevantes.</p>
<h3>Dúvida: os deuses existem?</h3>
<p>Muitos esquecem também que, embora os livros (de cenário de RPG)  afirmem que existem deuses e que eles entulham seus clérigos com magia divina até as orelhas, tal existência de deuses não é tão inequívoca assim. Eu sei que a televisão funciona por eletricidade e pela ação de um tubo de raios catódicos por ter assistido a aulas de Física. Caso eu não tivesse tido qualquer instrução em ciência, alguém que dissesse que &#8220;deus faz as imagens aparecerem ali&#8221; teria grandes chances de me lograr.</p>
<p>Em cenários de fantasia medievalesca/<em>low tech</em>, temos também a magia arcana, de sabor mais pseudo-científico (inclusive dividida em disciplinas de estudo, como Ilusão, Evocação, Biolog&#8230;, digo, Necromancia&#8230;). Assim como no meu exemplo da televisão, quem garante que os tais &#8220;milagres clericais&#8221; também não possam ser obra dessa <em>&#8220;arcanetech&#8221;</em>? Já posso ouvir protestos, e, por isso, faço um pedido &#8212; para fins de raciocínio, <em>ignore</em> qualquer restrição artificial entre magia arcana ou divina que seu jogo preferido possa vir a apresentar. Sim, artificial &#8212; é usada mais para equilíbrio de regras e em virtude de uma dose cavalar de tradição do que qualquer outra coisa. Tente ver através dos olhos de um <em>habitante do cenário</em>. Nem um aventureiro, um habitante comum mesmo. Se ele não souber que foi o cara de batina que conjurou a magia X, me diga com sinceridade &#8212; ele será capaz de saber, com 100% de certeza, se é arcano ou divino?</p>
<p>Alguns dizem que &#8220;duvidar da existência de deuses em fantasia medieval é como ver um avião no céu e duvidar da existência dele.&#8221; Errado. Ninguém duvida do avião &#8212; a dúvida estaria mais deslocada para: quem fabricou o avião? Quem o pilota? Qual o propósito de seu vôo? Magia divina, como já argumentei, pode ser facilmente atribuída à sua prima, a magia arcana. E os deuses? Pior ainda &#8212; clérigos de altíssimo nível e botinhas de saltitar Planos à parte, que parcela da população consegue, de fato <em>ver</em> um deus e afirmar &#8220;está ali, sem sombra de dúvida existe&#8221;? Uma parcela <em>ínfima</em> &#8212; e não só entre a população em geral, mas entre os aventureiros inclusive! E nem chegamos na fauna exótica &#8212; quem disse que um elemental ou bicho incorpóreo não pode ser confundido com uma divindade ou sinal/emissário da mesma? Já temos precedentes como um arbusto em chamas e uma jumenta falante, logo, um &#8220;sinal de presença divina&#8221; pode ser facilmente falsificável.</p>
<p><em>Você</em>, que lê o livro de regras, não tem margem alguma de dúvida. Mas lembre-se de que conhecimento do jogador não se deve confundir com conhecimento do personagem. E em se tratando de personagens, esses são facilmente passíveis de duvidar da existência do divino. E isso é <em>bom</em>: o conceito de fé, afinal, prevê acreditar em alguma coisa mesmo na ausência de qualquer evidência (e, nos piores casos, <em>a despeito</em> de provas contrárias). Nossos personagens não estão em situação muito diferente da nossa, que não temos qualquer prova concreta da existência de deuses. Mesmo sem qualquer prova convincente, muitos de nós acreditam. Isso não é virtude do deus, e sim da <strong>religião</strong> em torno dele.</p>
<h3>Religião sem os deuses</h3>
<p>Como disse acima, é o tipo com que temos mais contato &#8212; alguém aqui já viu o Jeová ou foi capaz de detectar sua presença com um método que, se empregado conforme instruído, possibilitará que qualquer um o teste? Nunca vi tal coisa. E, ainda assim, a religião a ele correspondente possui muitos adeptos. Ou seja, não é causa do deus em si, mas da estrutura <em>mui humana</em> criada ao redor dele. Mesmo que seu livro de cenário afirme que os tais deuses existem, na visão dos habitantes do mundo e da maioria dos personagens, <strong>não faz diferença</strong> eles existirem ou não. Os resultados são os mesmos.</p>
<p>Precisamos de um <strong>dogma</strong>, que geralmente é vendido no formato de um &#8220;livro sagrado.&#8221; Lá estão todas as &#8220;verdades absolutas,&#8221; escrita por mãos bem humanas (ou humanóides), mas cuja autoria é creditada a uma fugidia &#8220;inspiração divina.&#8221; Note que o conteúdo não é somente &#8220;espiritual&#8221; &#8212; parece ter muito mais a ver com os interesses pessoais dos fundadores da religião. O texto usado de base pelos cristãos tem origem nas crenças de tribos de pastores, logo, há toda uma carga de preservação do grupo às custas do bem-estar de grupos percebidos como rivais (tanto que há até regras claras sobre que tipo de escravo pode-se ou não ter e em quais condições). A sociedade deles era patriarcal, logo, há uma série de medidas projetadas (mesmo que inconscientemente) para enquadrar como &#8220;cidadão de segunda categoria&#8221; qualquer um que não pertença a esse &#8220;Clube do Bolinha&#8221; &#8212; subserviência da mulher (que, se adúltera, pode ser morta a pedradas) e ódio irracional aos homossexuais (que, na visão machista, são &#8220;piores que as mulheres&#8221; &#8212; eles, afinal, são homens, mas não seguem as regras do Clube do Bolinha ao se entregar a atividades &#8220;de mulher&#8221; &#8212; ser penetrado, usar certos tipos de roupa&#8230;).</p>
<p>Temos até a seção de culinária da Ana Maria Brega, que diz que não se pode comer ou mesmo tocar em um animal marinho que não possua escamas e barbatanas (vai ver é porque nunca saborearam uma boa <em>paella</em>!), e toda uma neurose em relação aos animais de cascos fendidos. Ah, mencionei que é pecado usar trajes constituídos de tipos diferentes de fibra têxtil? Sua camiseta de 90% algodão e 10% poliéster (ou aquele linho mais barato que contém algodão na composição), segundo eles, pode te levar pro inferno! Se tiver tempo, leia o Levíticos &#8212; há coisas <em>estranhíssimas</em> escondidas lá.</p>
<p>Como vê, uma escritura sagrada tem mais, muito mais do que um conceito raso como &#8220;deus da guerra.&#8221; São esses detalhes que faltam às religiões de cenário de RPG. Você não precisa de panteões imensos &#8212; um monoteísmo bem feito faz um trabalho bem melhor. Ninguém precisa escrever um livro sagrado inteiro para uma religião de jogo &#8212; nem mesmo eu sou anal-retentivo para tanto! &#8211;, mas não dói fazer algumas perguntas ao compor uma religião (ou incrementar uma pré-existente): quem foram os fundadores dessa religião? Em que condições eles viviam? Que valores sociais tais fundadores viam como interessantes e, portanto, dignos de disseminação e manutenção? Que valores ou costumes eles julgavam uó? Na religião cristã, toda a filia em torno do sofrimento &#8212; desde ajoelhar-se em superfícies rígidas para rezar aos extremos de auto-flagelação da <em>Opus Dei</em>, a imagem romanceada do mártir&#8230; &#8212; apresenta correspondência incrível com as condições de seus praticantes nos primórdios do culto ainda na Roma antiga, quando eram perseguidos e mortos. Uma das figuras máximas nesta crença morreu em execução, e o instrumento usado para matar &#8212; a cruz &#8212; se tornou símbolo da religião. Caso Jesus tivesse sido executado nos dias de hoje, é bem plausível supor que seus seguidores usariam, presas a correntinhas no pescoço, miniaturas de cadeira elétrica.</p>
<p>Adicione algumas coisas práticas, que um dia foram relevantes, mas, com o tempo, perderam significado &#8212; judeus, um adepto me informou em certa ocasião, proibiam o consumo do porco em virtude das doenças advindas da carne de porco mal cozida (você estudou isso no colégio que eu sei). Mas, pela natureza dogmática, mesmo hoje, sendo possível cozinhar a carne em condições seguras em que tais doenças não chegam até nós, a proibição continua na religião. Pense nisso também &#8212; que tipo de informação fazia sentido na época da criação da religião, mas que hoje é obsoleta e mantida por tradição apenas?</p>
<p>Mesmo que a religião se espalhe por todo o mundo, traços da cultura da localidade onde ela nasceu mantêm a sua marca. Explore isso também! Vamos supor, é meio ridículo, eu sei, uma religião que diz que um tipo específico de cão é sagrado. Digamos que, na área em que a religião surgiu, esse animal era raro e muito apreciado por sua pelagem exuberante, timbre melódico do latido, sei lá. Já sei, o uivo deste animal é, segundo a crença, capaz de chegar aos ouvidos da divindade, que derrama bênçãos por curtir demais o uivo. Agora imagine essa religião inserida em uma outra área, em que o tal cão é comum, mas tão comum e numeroso que chega a ser uma praga. A religião, sendo inflexível, vai continuar a dizer que o guaipeca é sagrado &#8212; poderemos ver uma cidade com as ruas cheias desses bichos, latindo, fedendo na chuva, roubado comida, revirando latas de lixo, atrapalhando o sono das pessoas com suas &#8220;sinfonias&#8221;de uivos, enfim, coisa bem desagradável. Mas as pessoas nada fazem contra os cuscos, pois a tal religião que os diz sagrados é fortíssima lá por alguma outra razão &#8212; os cães se tornam &#8220;efeito colateral.&#8221;</p>
<p>Como vê, livros sagrados têm mais, muito mais que apenas uma mitologia de criação ou coisa semelhante.</p>
<p>E a estrutura eclesiástica, como se dá? Ela é necessária &#8212; padres não apenas rezam missa: há toda sorte de trabalhos burocráticos, de manutenção e de propaganda necessários para manter a religião flutuando. Tais sistemas geralmente contam com uma hierarquia &#8212; principalmente em se tratando de uma cultura patriarcal, em que há sempre o &#8220;cabeça&#8221; ou &#8220;chefe&#8221; da casa/família/empresa. Como tal hierarquia é constituída? No catolicismo, padres não podem ter filhos por um bom motivo &#8212; isso iria desviar sua lealdade, que não seria mais voltada <em>exclusivamente</em> para a instituição, sendo dividida com os laços familiares entre pais e filhos. (E também é mais <em>barato</em> manter um só padre do que manter esse mesmo padre mais sua esposa e eventuais filhos.) Nem toda religião é celibatária &#8212; e se linhagens de sangue se formam dentro da estrutura eclesiástica? E se os laços de grupo forem menos rígidos, como nos druidas? E cabe lembrar que uma estrutura centralizada não é uma norma, ainda mais em cenários <em>low tech</em> em que a comunicação entre locais distantes é lenta e precária &#8212; dica: sumo-sacerdotes ou pontífices máximos não precisam estar presentes em <em>toda</em> religião.</p>
<p>E cabe observar que ordens eclesiásticas são constituídas de indivíduos. Fora os mais idealistas, boa parte terá objetivos <em>particulares</em>. Que podem muito bem influenciar em suas ações dentro da religião. E lembre-se também de que tais grupos, por mais que se pronunciem como tal, não são &#8220;totalmente espirituais&#8221; &#8212; é uma instituição no mundo real com pessoas reais. Que possuem vontades políticas e que não serão nada tímidas em fazer o que for preciso para manterem seus valores como dominantes na sociedade, mesmo que à custa do bem-estar de um número muito maior de pessoas.</p>
<p>E há também aqueles membros da hierarquia que, por seu carisma e obras, acabam sendo cultuados (até como santos ou coisa parecida) ou, pelo menos, vistos como exemplo &#8212; ações e crenças pessoais desses indivíduos podem acabar incorporados, mesmo que informalmente, a uma parte muito importante: <strong>rituais e costumes</strong>.</p>
<h3>Rituais e costumes (ou, não seja um &#8220;cristianismo de chapéu engraçado&#8221;)</h3>
<p>Sempre que se fala em definir as particularidades de uma religião, a abordagem normalmente vista é muito, mas muito triste e cansada &#8212; pegar como base a religião que te empurraram na infância (não é como se tivéssemos idade para conscientemente <em>escolher</em>, afinal), mudar alguns nomes, pôr um chapéu engraçado e, <em>voilá!</em>, está pronta uma religião&#8230; <em>meh</em>.</p>
<p>&#8220;Como será um casamento da Deusa do Conhecimento? Será que os convidados ganham um livro de Sudoku?&#8221; Alto lá:  quem disse que a religião dela sequer <em>precisa</em> ou <em>justifica</em> algo como casamento como nós conhecemos?&#8221; Sim, &#8220;como nós conhecemos.&#8221; Dez, quinze, vinte deuses diferentes (e, assumo, número correspondente de religiões, por conseqüência), e <em>todos</em> lidam com casamento em um modelo <em>ultra-específico</em> (sempre duas pessoas, das quais uma <em>precisa</em> ter testículos e a outra <em>necessita</em> de ovários)? Os suplementos, em geral, não chegam a discutir isso &#8212; mas os jogadores simplesmente assumem que assim seja, visto que, de um modo geral, são apenas familiares com <em>uma</em> religião (aquela em que foram doutrinados, possivelmente), e supõem que toda religião (ou, em casos perniciosos, toda religião <em>&#8220;verdadeira&#8221;</em>) precisa seguir tais moldes.</p>
<p>Tenho uma hipótese: isso se dá pela familiaridade com apenas <em>uma</em> religião, mas o conhecimento, mesmo que superficial, de <em>vários</em> deuses &#8212; afinal, duvido que alguém aqui não seja familiar com figurinhas como Atena e Hades. Tenta-se, como conseqüência, aplicar os moldes de uma situação (monoteísmo cristão) a outra radicalmente diferente (politeísmo da antiguidade clássica). Não faça isso. Divindades diferentes, dogmas e valores diferentes, interesses diferentes &#8212; práticas e rituais igualmente diferentes. Até porque, a situação comum nos mundos de fantasia não é a mesma que vivemos no nosso, diversas religiões rivais competindo entre si no &#8220;mercado de fiéis (e suas carteiras),&#8221; defendendo que seu deus é o único verdadeiro. No politeísmo, todas as divindades são vistas como igualmente existentes e parte de uma &#8220;grande família.&#8221; Famílias podem muito bem dividir funções &#8212; você lava a louça, seu pai leva o lixo para fora, sua mãe organiza os gastos da casa. Duas religiões podem possuir rituais, &#8220;sacramentos,&#8221; em comum, ou pelo menos, parecidos &#8212; mas eu não esperaria que todas praticassem exatamente os mesmos rituais com as mesmas funções. Eu poderia esperar cerimônias matrimoniais em religiões como a de Khalmyr ou Marah, mas acharia meio estranho para Tannah-toh e ficaria alarmado em ver isso para Megalokk. Não acharia estranho ver clérigos de Tenebra metidos em aposentos escuros, embalsamendo cadáveres e oficiando cerimônias de enterro (usando pesadíssimos véus e capuzes para não serem tocados por Azgher), diria &#8220;hein?!&#8221; se me apresentassem os festeiros clérigos de Marah fazendo o mesmo.</p>
<p>Por vezes, em cenários de RPG, elementos podem parecer temáticos em excesso. São reinos, raças, deuses, etc. que passam a impressão de serem monolíticos; deuses cujas áreas de influência, por exemplo, são divididas de maneira que passa a impressão de ser certinho <em>demais</em>; a área de influência de um deus raramente tem uma interseção com aquela designada a outro, no melhor estilo &#8220;o purê não deve tocar as ervilhas.&#8221; Ainda que isso possa, sob certas condições, parecer um <em>defeito</em>, é bem possível, no detalhamento de uma religião fantástica, fazer disso uma <em>força</em>.</p>
<p>Usemos como exemplo o <em>Tormenta</em>. Lá temos o Khalmyr, que é o deus da ordem e outras coisas de neurose anal-retentiva. Ainda que deuses assim sejam fortemente associados ao conceito de <em>tradição</em>, pode ser mais interessante focar mesmo na <em>ordem</em>. Haveria uniões entre os rituais de Khalmyr, mas quem disse que precisam ser casamentos no molde cristão? Em vez disso, <em>toda</em> união sob a égide de Khalmyr seria aquilo que o casamento é em última instância &#8212; um <em>contrato</em>. Não precisaria ser entre homem e mulher, ou sequer entre apenas duas pessoas. O critério seria uma <em>simetria</em> de intenções e de investimento; como preparação, os envolvidos orariam segurando um objeto que representa essa união; tais objetos são, na ocasião da cerimônia, postos sobre os pratos de uma balança encantada, que mediria as tais intenções. O casamento, aqui, não teria funções de &#8220;moral&#8221; ou assegurar que uma das partes fique parindo pirralhos &#8212; o casamento é um elemento de coesão social. Pessoas unidas por acordos bem delineados, em teoria, formam núcleos mais estáveis, e a ordem é assim reforçada. Podemos ainda adicionar uma estranheza &#8212; grupos podem se unir, mas desde que o número de componentes seja <em>par</em>. Religiões são cheias de arbitrariedades, afinal.</p>
<p>Se conseguirmos ignorar a homofobia inerente aos brasileiros-das-cavernas, o que nos impede que casamentos na religião de um deus da guerra se dêm apenas entre pares de soldados homens, criando um vínculo como aquele existente entre os espartanos? Se quisermos a religião machista, podem haver mulheres no clero, cuja função é a procriação de novos soldados  &#8212; apesar de ser casado com outro soldado, um dado combatente é convocado a, periodicamente, &#8220;comparecer&#8221; com uma destas madres procriadoras.</p>
<p>A religião de um deus do caos associado à loucura pode se basear inteira em distúrbios psiquiátricos. Seria um caso <em>sui generis</em>, em que o dogma não é aprendido e memorizado &#8212; ele é parte inerente da psicologia do clérigo, um dogma &#8220;automático e sempre ativo,&#8221; que influencia todas suas ações. Foi esta a linha que segui para elaborar detalhes hipotéticos sobre um clero para Nimb &#8212; que será, aliás, publicado aqui no blogue em pouco tempo, acredito. E querem saber? Foi uma experiência estimulante elaborar tal material &#8212; sintomas de distúrbios mentais se prestam otimamente como base para ritos.</p>
<p>Pesquise também sobre ritos reais, sejam eles religiosos ou não &#8212; culturas tribais possuem interessantes ritos de iniciação à maturidade, por exemplo. Quer incluir casamento? Que tal se instruir sobre o que existe além da monogamia?</p>
<p>Outro assunto que também é relevante são os <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Culto_%C3%A0_carga"><strong>cultos à carga</strong></a>, <em>cargo cults</em>, em inglês. Eles ocorrem quando culturas menos desenvolvidas tecnologicamente têm contato com uma mais desenvolvida. Visitantes chegam em aviões trazendo todo tipo de quinquilharia impressionante; depois, os visitantes não mais aparecem. Os nativos entram em parafuso e constróem &#8220;pistas de pouso&#8221; e &#8220;aviões,&#8221; feitos de palha e madeira, de forma a atrair de volta os &#8220;aviões divinos.&#8221; Cheguei a ler sobre um que, inclusive, contava com uma espécie de sacerdotisa, uma mulher enrolada com um fio de metal que chamavam de &#8220;rádio,&#8221; capaz de se comunicar com os &#8220;deuses&#8221; dotados de tecnologia. É uma das raras oportunidades que se tem de observar uma religião em formação, e é um ótimo guia para montar a sua. Que tipo de evento, essencialmente mundano*, mas impressionante aos observadores, ocorreu, e que elementos ele possui que podem servir como base para uma religião?</p>
<p>*Ou nem tanto, tendo em mente a possibilidade de magia e fauna fantástica.</p>
<h3>Estrutura de cultos</h3>
<p>Cultos parecem coisa de gente doida &#8212; eles se juntam em grupos, tendem a ser isolacionistas, hostis às coisas externas, seguem costumes estranhos e acreditam em coisas mais bizarras ainda. Segundo o Isaac Bonewits (autor do excelente <em>Authentic Thaumaturgy</em>), isso não é exclusividade de cultos pequeno &#8212; segundo ele, mesmo as maiores e mais <em>mainstream</em> das religiões seguem os mesmíssimos moldes de um culto. Isso aí &#8212; inclusive a <em>sua</em> religião, muito provavelmente, se você segue uma.</p>
<p>De maneira a demonstrar sua teoria, Bonewits criou o <a href="http://www.neopagan.net/ABCDEF_Portuguese.html"><strong>Método Avançado para a Avaliação do Perigo de Cultos</strong></a>, que contém uma lista de características que podem existir em maior ou menor grau em uma religião com características de culto. Ainda que o Bonewits não seja exatamente imparcial &#8212; adepto de religião pagã, crente que magia é coisa real, relutante em aceitar fatos científicos&#8230; &#8211;, sua ferramenta parece bastante precisa. Ainda que não fosse, continuaria servindo para nosso propósito &#8212; <strong>criar parâmetros para uma religião fictícia</strong>. Você pode ler o <em>link</em> com todos seus detalhes, ou se contentar com uma listagem dos ditos critérios, que segue:</p>
<p><strong>Controle Interno:</strong> quantidade de poder político e social interno exercido pelo(s) líder(es) sobre os membros; falta de direitos claramente definidos para os membros dentro da organização.</p>
<p><strong>Controle Externo:</strong> quantidade de influência política e social externa desejada ou obtida; ênfase em direcionar o comportamento político e social externo dos membros.</p>
<p><strong>Sabedoria ou Conhecimento Alegado pelo(s) líder(es):</strong> quantidade de infalibilidade declarada ou implícita das decisões ou interpretações doutrinárias ou das escrituras; número e grau de credenciais não verificadas ou inverificáveis alegadas.</p>
<p><strong>Sabedoria ou Conhecimento Creditado ao(s) líder(es) pelos membros:</strong> quantidade de confiança nas decisões ou interpretações doutrinárias ou das escrituras feitas pelo(s) líder(es); quantidade de hostilidade dos membros a críticas internas ou externas ou a esforços de verificação.</p>
<p><strong>Dogma:</strong> rigidez dos conceitos sobre a realidade ensinados; quantidade de inflexibilidade doutrinária ou &#8220;fundamentalismo&#8221;; hostilidade ao relativismo e ao situacionismo.</p>
<p><strong>Recrutamento:</strong> ênfase colocada na atração de novos membros; quantidade de proselitismo; exigência de que todos os membros tragam outros novos.</p>
<p><strong>Grupos de Fachada:</strong> número de grupos subsidiários usando nomes diferentes daquele do grupo principal, especialmente quando as ligações são escondidas.</p>
<p><strong>Riqueza:</strong> quantidade de dinheiro ou propriedade desejada ou obtida pelo grupo; ênfase nas doações dos membros; estilo de vida econômico do(s) líder(es) em comparação ao dos membros comuns.</p>
<p><strong>Manipulação Sexual dos membros pelo(s) líder(es) de grupos não-tântricos;</strong> quantidade de controle exercido sobre a sexualidade dos membros em termos de orientação sexual, comportamento ou escolha dos parceiros.</p>
<p><strong>Favoritismo Sexual:</strong> progresso ou tratamento preferencial dependente de atividade sexual com o(s) líder(es) de grupos não-tântricos.</p>
<p><strong>Censura:</strong> quantidade de controle sobre o acesso dos membros a opiniões externas sobre o grupo, suas doutrinas ou seu(s) líder(es).</p>
<p><strong>Isolamento:</strong> quantidade de esforço para impedir os membros de se comunicarem com não-membros, incluindo família, amigos e namorados.</p>
<p><strong>Controle sobre os desistentes:</strong> intensidade de esforços direcionados a prevenir ou recuperar desistentes.</p>
<p><strong>Violência:</strong> quantidade de aprovação quando usada pelo ou para o grupo, suas doutrinas ou seu(s) líder(es).</p>
<p><strong>Paranóia:</strong> quantidade de medo de inimigos reais ou imaginários; exagero quanto aos poderes percebidos dos oponentes; prevalência de teorias conspiratórias.</p>
<p><strong>Rigidez:</strong> quantidade de desaprovação de piadas a respeito do grupo, suas doutrinas ou seu(s) líder(es).</p>
<p><strong>Submissão da vontade:</strong> quantidade de ênfase em que os membros não tenham de ser responsáveis por decisões pessoais; grau de perda de poder individual criado pelo grupo, suas doutrinas ou seu(s) líder(es).</p>
<p><strong>Hipocrisia:</strong> quantidade de desaprovação de ações que o grupo oficialmente considera imorais ou antiéticas quando feitas pelo ou para o grupo, suas doutrinas ou seu(s) líder(es); disposição para violar os princípios declarados do grupo para ganhos políticos, psicológicos, sociais, econômicos, militares ou de outro tipo.</p>
<p>É bem possível que você nunca tenha pensado em uma religião &#8212; real ou fictícia &#8212; nesses termos. Acredito que seja desejável e interessante fazê-lo &#8212; às perguntas ali presentes, respostas muitos interessantes tendem a surgir. Ah, sim, e serve para <em>qualquer</em> religião, não só aquelas definidas como &#8220;malignas.&#8221;</p>
<h3>Religiões &#8220;malvadas&#8221;</h3>
<p>Estas tendem a ser mal desenvolvidas. Chegam a ser caricaturais, uma espécie de &#8220;Central da Maldade,&#8221; onde se reúnem a Flora (<em>A Favorita</em>) e a Odete Roitman para, sei lá, sapatearem sobre filhotinhos de cachorro e furarem olhos de canários com a ponta seca de um compasso. Aqui entra outro ranço do cristinanismo &#8212; de um lado, as religiões &#8220;do bem,&#8221; branquinhas, com raios solares e plumas alvas; do outro, as religiões &#8220;do mal,&#8221; onde todos se vestem de preto, se adornam com crânios, devoram criancinhas&#8230; Toda religião &#8220;malvada&#8221; mais parece uma caricatura de (aquilo que se acredita como sendo) um culto satânico, ou talvez um daqueles relatos estereotipados de &#8220;ex-bruxas&#8221; que fazem testemunhos na &#8220;Sessão do Descarrego.&#8221;</p>
<p>Quem sabe alguma coisa mais crível; em vez de uma religião malvada-666-<em>from-hell</em>, que tal uma religião apenas <em>auto-interessada</em>? Pense em empresários e grandes corporações &#8212; duvido que os envolvidos sejam ativamente malvados, interessados em causar dor e horror. Eles são apenas <em>egoístas</em> &#8212; focam em seus interesses próprios e não ligam (ou conduzem forte contorcionismo de consciência para ignorar) para os efeitos colaterais de suas práticas &#8212; concentração obscena de renda, emburrecimento das pessoas mediante o incentivo de uma mentalidade consumista&#8230; Claro que isto é um extremo &#8212; se você for falar com o diretor de uma dessas empresas, ele é bem capaz de convencê-lo que suas motivações são boas. E é bem possível que sejam. Mas é aquela coisa &#8212; &#8220;de boas intenções, o inferno está cheio.&#8221;</p>
<p>Quando for elaborar sua religião antagonista, pense em um objetivo <em>legítimo</em>, mas cujas medidas efetuadas para alcançá-lo gerem efeitos colaterais indesejáveis.</p>
<p>E dê um jeito nas roupas, pelamordedeus. Quando você coloca um cultista &#8220;du mau&#8221; vestido como se tivesse saído de uma convenção sadomasoquista e tão coberto de ossos que parece que um esqueleto explodiu em cima dele, é praticamente o mesmo que pôr um letreiro em <em>neon</em> em sua testa com os dizeres &#8220;Malvado! Me mate!&#8221; Tente não ser óbvio.</p>
<p>E o mesmo vale para as religiões &#8220;boas.&#8221; Não faça-os <em>goody-goody</em>. &#8220;Mas o sistema de Tendência diz que&#8230;&#8221; &#8212; mande pro inferno isso. Ele se presta muito bem para gerenciar proibições de magias, itens e classes de prestígio, mas se aplicado para construção de cenário&#8230; Repito: de boas intenções o inferno está cheio. Enquanto no <em>D&amp;D</em> existe toda uma retentividade de que &#8220;um fiel não pode estar a tantos passos da tendência da deidade, <em>yadda, yadda</em>,&#8221; o <em>Eberron</em>, mesmo sendo, a rigor, <em>D&amp;D</em>, manda isso para as favas. E religiões mais interessantes temos, da variedade em que existe corrupção no clero e, portanto, com possibilidades mais ricas. Supõe-se até que na religião da <em>Silver Flame</em>, um culto &#8220;do bem,&#8221; quem fala através da tal chama-oráculo não é deus algum, mas, sim, um demônio muito esperto.</p>
<h3>Considerações finais</h3>
<p>Se eu fui capaz em não pisar demais em eventuais calos, pode-se notar que há muito mais sobre religiões do que a informação contida em descrições de deuses de RPG ou até mesmo o conhecimento sobre religiões reais que temos, caso nossa única fonte tenha sido o doutrinamento na religião em questão. Considerar a religião como um fenômeno mundano, mantendo o foco nas manifestações que são inequívocas em sua existência, nos pode ajudar a notar pequenos detalhes que, so outro enfoque, teríamos ignorado. E é bom ter consciência disso &#8212; é justamente com <em>estes </em>aspectos da religião que interagimos diretamente, logo, pode-se defender que, na maioria dos casos, é com estes aspectos com que nossos personagens também hão de interagir.</p>
<p>Uma fé inabalável, de certezas absolutas, é algo desejável pelas religiões em seus fiéis, de fato. Mas, se generalizada essa postura, subtraímos a incerteza, que é emocionante. Já em um ambiente em que a dúvida pode florescer, questionando e até mesmo ameaçando a fé, as coisas perdem aquela certeza chata e inabalável. Quando há dúvida e conflito, temos um terreno fértil para as estórias de nossos personagens &#8212; caberá a <em>eles</em> definir para qual lado a balança há de pender no fim das contas.</p>
<p>Para finalizar, deixo um exercício de pensamento (para você, leitor, e também para mim, que só pensei nisso após terminar de escrever o artigo): <strong>como seria uma religião sem fé?</strong> Se deuses são um fato inequívoco e facilmente testável, cuja existência e influência estão acima de <em>qualquer</em> dúvida, como se daria a religião, uma vez que o conceito de fé não se faz necessário? Seria o fiel mais crítico? Seria o deus uma espécie de político ou estrela do roque, preocupado em agradar fiéis e interessados em questões de mercado de crença? Algo bastante empolgante (e possivelmente pouco parecido com religião como nós conhecemos!) pode sair daí.</p>
<p>E reforço: se existem fragmentos de regras que, se aplicados a religiões, as deixam menos interessantes, <strong>ignore as malditas regras</strong>. A mecânica existe para gerenciar situações e elementos de jogo, &#8220;descrevendo-os&#8221; sob parâmetros manejáveis. Se, em algum momento, as regras passam de <em>ferramenta</em> para <em>camisa-de-força</em>, <strong>limitando</strong> suas idéias, em vez de ajudá-lo a dar-lhes forma, não hesite em espremer e torcer mecânicas até que <em>elas</em> se encaixem no conceito que <em>você</em> idealizou. Você manda nas regras, e não o contrário.</p>
<img src="http://www.dot20.com.br/?ak_action=api_record_view&id=3801&type=feed" alt=" Menos deuses e mais religião"  title="Menos deuses e mais religião" />

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		<title>Caim: um curioso livro sem vampiros</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Nov 2009 07:58:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jagunço</dc:creator>
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<div class="wp-caption alignright" style="width: 190px"><a title="Caim" href="http://www.dot20.com.br/wp-content/uploads/2009/11/Caim.jpg" rel="lightbox[2785]"><img class="attachment wp-att-2803 " style="margin: 5px;" src="http://www.dot20.com.br/wp-content/uploads/2009/11/Caim.jpg" alt="Caim Caim: um curioso livro sem vampiros" width="180" height="270" title="Caim: um curioso livro sem vampiros" /></a><p class="wp-caption-text">Capa de &quot;Cain&quot;, de José Saramago</p></div>
<p>O escritor lusitano José Saramago dispensa apresentações. Com o bem aceito filme <em>Ensaio sobre a Cegueira</em>, do diretor Fernando Meireles,<em> </em>sua obra literária ganhou uma adaptação aparentemente respeitável, demonstrando que suas histórias tem chance nas mais variadas linguagens – isso, claro, sem retirar o mérito dos envolvidos na produção da película.</p>
<p>Mas o que me traz aqui hoje é o mais recente livro do nobelesco contador de histórias: <strong>Caim</strong>.</p>
<p>Publicada este ano, a narrativa já inspira fúrias e devoções para com o autor, mundo afora. Desta vez, tomando outro caminho bíblico como cenário para sua composição – como já fez antes em <em>O evangelho segundo Jesus Cristo ­</em>– Saramago escolhe recontar o drama de Caim, filho de Adão e Eva, a partir de uma leitura irônica e propositalmente anacrônica da lendária personagem. Somos levados, dentro de suas páginas, a viver os tempos primeiros de um mundo caótico, governado por uma leitura do Deus do Antigo Testamento recheada de crítica e humor sombrio – uma entidade tirânica e sem muitos argumentos. Caim, por sua vez, é retratado na história – que pode muito bem ser lida com um conto longo – como sendo a triste vítima de uma série de desvarios desta divindade contraditória.</p>
<p>De um lado o “primeiro assassino” e protagonista é o observador de inúmeras ocorrências fundamentais da história religiosa judaico-cristã, andando pelo tempo sem regras. Do outro é o ponto de contato entre uma humanidade absolutamente livre (e castigada por isso) e um conjunto de leis divinas em desenvolvimento que “colocarão as coisas no lugar” – em tese&#8230; No correr da noveleta, Saramago amarra o caminho de Caim a diálogos curtos e propositalmente confusos que beiram a comédia, mas marcam um estilo cuidadoso. Temos a descrição vaga de um mundo vago, ainda em construção, assim como um conjunto de rápidos exames dos contatos e dos poderes que o formam.</p>
<p>No fundo, o livro é uma crônica satírica ou semi-séria de crenças tradicionais do Ocidente, assim como um pequeno manual de “que Deus é esse?” escrito sem grandes pretensões. Uma leitura rápida, mas não leve, recomendada pelo talento do escritor em fazer dialogar o inacreditável e o cotidiano.</p>
<p>Deixando de lado essa tentativa de quase-resenha, lembro que ao ler o livro, me ocorreram duas coisas possivelmente válidas para o mundo das narrativas rpgísticas. A primeira, é que a divertida e polêmica construção de Saramago serve facilmente para uma autocrítica narrativa: quando você mestra, que tipo de “deus” você é para os personagens? O quanto é capaz de contar uma história onde eles tenham a liberdade de decidir sobre os rumos da coisa toda? O quanto, honestamente, está disposto(a) a rasgar o seu precioso roteiro e abrir caminho para as audaciosas idéias dos demais? O quão despótico somos na organização de nossos cenários e de nossas histórias e que prejuízo isso traz para sessões e campanhas?</p>
<p>A segunda coisa também válida é parte de idéias até mais antigas (presentes, de outra forma, em outro artigo): quais as implicações de se narrar em mundo 1.0? Como é a vida em cenários recentes, sem grandes lugares, sem grandes personagens que não as dos jogadores? Como contar uma campanha no começo do seu mundo?</p>
<p>A leitura de Caim não é parecida com nada muito tolkeniano, mas cria alguns pontos curiosos no que diz respeito ao exercício geral de imaginar cenários e relações entre personagens. Não é, também, um “grande livro”, no sentido da originalidade ou das questões que coloca. Retoma a crítica à religião e polemiza dentro de um campo de debate já movimentado. Articula um pouco os pontos-chave de antigos dogmas para negá-los, “tocando na ferida” religiosa e agregando valor enquanto faz isso (uma moda literária que não ainda dá sinais de envelhecimento, pelo visto). Serve mais como passatempo passageiro, ainda que carregado de alguma densidade por conta do português incomum que Saramago gosta de criar – e onde reside o verdadeiro valor do trabalho. Como último ponto a se destacar temos o preço: no Brasil sai, em média, por R$ 36,00. Isso por um livro de 172 páginas formato “bolso”. É o peso do nome (e, infelizmente, ele pesa).</p>
<p>Saudações narrativas. <img src='http://www.dot20.com.br/wp-includes/images/smilies/icon_smile.gif' alt=':)' class='wp-smiley' title="Caim: um curioso livro sem vampiros" /> </p>
<img src="http://www.dot20.com.br/?ak_action=api_record_view&id=2785&type=feed" alt=" Caim: um curioso livro sem vampiros"  title="Caim: um curioso livro sem vampiros" />

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		<title>Zumbis, liches e múmias! Oh, my! (Parte 2)</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Jul 2009 14:23:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Shido Vicious</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na primeira parte deste artigo discutimos a fisiologia desmorta e, munidos de uma visão mais naturalista, descontaminada de absolutos morais e abracadabrismos inexplicáveis &#8212; que são ruins por não permitirem um manejo flexível dos elementos envolvidos &#8211;, observamos algumas possibilidades interessantes como processos de construção de mortos-vivos, o uso destes como força de trabalho e [...]


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<li><a href='http://www.dot20.com.br/2009/08/03/squigs-parte-fungo-parte-animal-totalmente-famintos/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Squigs &#8211; parte fungo, parte animal, totalmente famintos'>Squigs &#8211; parte fungo, parte animal, totalmente famintos</a></li>
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			<content:encoded><![CDATA[<div class="tweetmeme_button" style="float: right; margin-left: 10px;">
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			</a>
		</div>
<p>Na <a href="http://www.dot20.com.br/2009/07/16/zumbis-liches-e-mumias-oh-my-parte-1/"><strong>primeira parte</strong></a> deste artigo discutimos a fisiologia desmorta e, munidos de uma visão mais naturalista, descontaminada de absolutos morais e abracadabrismos inexplicáveis &#8212; que são ruins por não permitirem um manejo flexível dos elementos envolvidos &#8211;, observamos algumas possibilidades interessantes como <strong>processos de construção</strong> de mortos-vivos, o uso destes como <strong>força de trabalho</strong> e a desmorte como <strong>tecnologia de imortalidade</strong> na ausência de meios mais &#8220;limpos&#8221; ou mais baratos. Isto foi apenas a ponta do <em>iceberg</em>.</p>
<p>E quanto aos <strong>esqueletos</strong> e <strong>mortos-vivos incorpóreos</strong>? Que difere o <strong>lich</strong> de um <strong>zumbi</strong> regular? De onde os mortos-vivos tiram <strong>energia</strong> para funcionar? Como a <strong>sociedade</strong> vai encarar cadáveres embalsamados andando por aí? Que fará a <strong>religião</strong> para se aproveitar da situação ou estragar a festa?</p>
<p><span id="more-2133"></span></p>
<h3><img src="http://www.dot20.com.br/wp-includes/js/tinymce/plugins/wordpress/img/trans.gif" alt="trans Zumbis, liches e múmias! Oh, my! (Parte 2)"  title="Zumbis, liches e múmias! Oh, my! (Parte 2)" />Mortos-vivos incorpóreos e a natureza da alma</h3>
<p>Vamos definir: morto-vivo &#8212; ou, para traduzir melhor o termo <em>undead</em>, <strong>desmorto</strong> &#8211;, para fazer jus ao nome, precisa primeiro ter estado vivo, morrido e depois posto novamente em funcionamento usando meios distintos da, hã&#8230;, &#8220;biologia tradicional&#8221;. Com os <strong>zumbis/múmias</strong> da primeira parte do artigo, foi fácil &#8212; um tratamento físico-químico que retém algumas funções do corpo &#8212; cerebrais e motoras &#8212; enquanto some com outras &#8212; metabolismo, movimentos musculares involuntários&#8230; Com os incorpóreos, não há corpo para tratar, logo, precisamos de algo:</p>
<p>1. Que exista no indivíduo vivo;</p>
<p>2. Que possa ser posto novamente em funcionamento sob <em>outra</em> estrutura corpórea;</p>
<p>3. Que seja suficientemente semelhante ao original vivo, o suficiente para se afirmar &#8220;é o mesmo indivíduo, só que trazido de volta&#8221;.</p>
<p><strong>Alma</strong>? É vago demais, impregnado de abracadabrismos religiosos ao ponto de ser inaceitável. Pode até ser aceitável, mas não é divertido &#8212; cai-se em &#8220;é magia&#8221; ou &#8220;é a alma imortal&#8221;, seguido de &#8220;fim de papo&#8221;, o que é <em>broxante</em> &#8212; metade da graça está em mexer nas variáveis, ajustar aqui e ali, jogar as informações e colher algo inesperado na saída.</p>
<p><strong>Mente</strong>, por outro lado, já pode ser mais palpável. De acordo com <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Marvin_Minsky"><strong>Marvin Minsky</strong></a>, <em>&#8220;Mentes são aquilo que cérebros fazem&#8221;. </em>E o que cérebros fazem? Além de regular as funções do corpo, eles <strong>processam e armazenam informação</strong>. Funcionam através de sinapses, correntes elétricas em uma matriz neuroquímica (generalizando bastante, claro). Desse modo, a forma de &#8220;descarnar&#8221; uma mente é arrumar uma <em>outra</em> matriz onde o <em>mesmo </em>mapa sináptico possa rodar.</p>
<p>Se você leu meu <a href="http://www.dot20.com.br/2009/06/26/inteligencia-divina-deuses-desumanos-e-outras-excentricidades/"><strong>artigo sobre inteligências divinas</strong></a>, já pode imaginar que se pode fazer fantasmas da mesma maneira que os deuses, que, segundo o texto, nada mais são que mentes rodando em uma matriz imaterial. Em um primeiro momento, serão as mesmas mentes de &#8220;ex-vivos&#8221; funcionando em uma nova matriz, o que os classifica como desmortos.</p>
<p>Para exemplificar, vou usar a matriz do <strong>modelo físico do éter</strong>, utilizado no <em>Romância</em>, que se presta bem para isso. Uma mente baseada no éter é muito semelhante a um <em>software</em> &#8212; ela percebe o meio, cruza as informações com aquelas que tem armazenadas, aplica critérios particulares (<em>personalidade</em>, por assim dizer) e, como produto, reage ao meio. Essa mente pode se modificar. Da mesma forma que um bebê aprende a mexer seu membros, a andar e a manipular objetos no ambiente  material em que funciona, a &#8220;mente descarnada&#8221; se adapta de modo a funcionar dentro da matriz etérica. Que é o mesmo &#8220;console&#8221; onde a magia também roda. Daí temos certas capacidades incríveis associadas a fantasmas, como se manifestar visualmente (manipulação holográfica da luz), meter um medo do caramba (sugestão telepática) e, em casos perigosos, envelhecer aventureiros (manipulação biocinética) ou aqueles &#8220;toques gélidos&#8221; (criocinese 101). Mesmo que tal mente, em seu corpo original de carne, nada soubesse sobre taumaturgia &#8212; para formas de carne, são necessários sistemas e artifícios para influenciar o éter que lhes é invisível; uma forma baseada em éter, por outro lado, pode interagir com o meio da mesma forma que abrimos uma porta utilizando a maçaneta.</p>
<p>Uma mente &#8220;<em>upload</em>&#8221; com &#8220;poderes de fantasma&#8221; é uma alteração menor. As coisas começam a se tornar interessantes &#8212; e perigosas &#8212; quando começam a ocorrer transformações psicológicas mais profundas. Se você, por exemplo, acordasse, sem aviso, com o corpo de um leão, acabaria, transcorrido suficiente tempo, abandonando procedimentos humanos que não mais são práticos para a nova forma &#8212; como a relutância em comer carne crua ou matar outros organismos para adquiri-la.</p>
<p>A mente <em>upload</em> não se descobre um leão, mas algo mais perigoso, capaz de manipular à vontade forças invisíveis e, com suficiente prática, até mesmo a matéria em seu nível atômico ou menor. Moralidade que previne agressões contra outras formas de carne pode se tornar uma preocupação progressivamente menos relevante, até o ponto de ser descartada, e o mesmo vale para outras características da psicologia humana.</p>
<p>Daí temos sombras, espectros, <em>allips</em> e outros exemplares da fauna desmorta incorpórea. As condições do <em>upload</em> também podem ser cruciais para a nova configuração. Se definimos &#8220;morte traumática&#8221; como uma das variáveis, uma mente descarnada em um meio de possibilidades ilimitadas e <strong>traumatizada/furiosa</strong> é um resultado possível. Da mesma forma que com os desmortos embalsamados, o momento do <em>upload</em> também é relevate. Poucos segundos após a morte? Mente funcional. Seis horas? O mapa mental &#8220;uplodeado&#8221; será aquele de um cérebro danificado, com uma gama enorme de distorções possíveis.</p>
<p>Algo interessante sobre a mente <em>upload</em>: no momento em que ela se torna um conjunto de <em>informação</em>, em vez de uma peça biológica (como um cérebro), fica relativamente fácil de replicar. Você não consegue fazer cópias de seu HD ou de seu <em>pen drive</em>, mas consegue fazer um número ilimitado de cópias da <em>informação</em> contida neles. Mantenha isso em mente, usaremos daqui a pouco.</p>
<h3>E os esqueletos?</h3>
<p>Não há como aplicar os processos discutidos na primeira parte do artigo &#8212; eles não possuem carne alguma. Em vez de mortos-vivos <em>per se</em>, eles mais me parecem <em>objetos animados</em>. O que os diferencia do amigável candelabro d&#8217;<em>A Bela e a Fera</em>? Por serem restos de alguém morto, metem medo. Se eu estou em um salão escuro e um esqueleto vem cambaleando na minha direção, a primeira reação, em virtude do medo associado com uma carga cultural impregnada de superstição, seria &#8220;PQP, essa coisa voltou da morte pra puxar meu pé&#8221; &#8212; quando, na verdade, poderia ser uma &#8220;marionete&#8221; controlada por um telecinético de senso de humor doentio, ou um feitiço/programa de <em>loop</em> infinito de algoritmo telecinético.</p>
<p>Notem que a parte da profanidade/maldade/forças do Tinhoso não é eliminada &#8212; ela apenas passa de causa para efeito, existindo apenas na mente do observador. E nem por isso desprezível &#8212; essas coisas são, afinal, <em>reais</em> na mente de quem as percebe.</p>
<p>Se se quiser uma causa &#8220;realmente morta-viva&#8221; para um esqueleto que se mova, o primeiro candidato invisível que vem à cabeça são os fantasmas-<em>uploads</em> do exemplo anterior. Suas capacidades <em>poltergeist</em> podem atirar louça e prataria nas pessoas &#8212; ou mover um esqueleto, de forma a ser ainda mais desagradável. (Se você morresse e &#8220;acordasse&#8221; com a memória de ter morrido doloroda e traumaticamente e, pior ainda, sem seu corpo, provavelmente enlouqueceria e se tornaria mais intragável que a Suzana Vieira&#8230;)</p>
<h3>Liches</h3>
<p>Além da inteligência, o que difere o <em>lich</em> do <em>zumbi</em> são os acessórios. O lich é um cadáver embalsamado e funcional que possui um arsenal de poderes &#8212; muito provavelmente advindos de sua carreira de mago &#8212; e a tal da <strong>filacteria</strong>, que é um nome bonito para <em>save point</em>.  Aquilo que escrevi sobre <em>upload</em> de mentes se faz útil aqui &#8212; a tal da filacteria é um HD (ou qualquer outra unidade de armazenamento de dados conveniente), que guarda todo o mapa sináptico do lich &#8212; personalidade, memórias, etc. O cérebro do lich, evidentemente, está em conexão direta com a filacteria, realizando <em>backups</em> constantes. Uma filacteria, portanto, nada mais é que uma <strong>cópia</strong> de segurança.</p>
<p>Aqueles aventureiros sacanas destruíram o lich por causa de um mal-entendido cultural, crentes de que estavam fazendo &#8220;a coisa certa&#8221;? Sem problemas &#8212; todos os dados da mente do lich, aquilo que faz dele um indivíduo, estão convenientemente salvos em local seguro (espera-se), apenas esperando para serem baixados no cérebro de outro corpo.</p>
<p>Outro corpo? Então por que raios o cara se submeteu a um embalsamamento &#8220;forçado&#8221; em primeiro lugar? Ele não poderia ter simplesmente continuado no corpo e, quando lhe parecesse conveniente, &#8220;pulado fora&#8221; para o corpo de outro indivíduo (devidamente lavado cerebralmente &#8212; mas isso seria <em>realmente</em> maligno) ou para uma cópia &#8212; i.e. clone &#8212; de seu próprio corpo?</p>
<p>Para a resposta ser não, devemos supor que a magia/tecnologia que lida com matéria viva no cenário (chamaremos genericamente de <em>biomancia</em>) não é suficientemente desenvolvida para criar um clone. Pelo menos não um clone <em>funcional</em> &#8212; da mesma maneira que se pode produzir carne em laboratório, um biomante de bom nível pode replicar seus ossos e músculos (já deixando de fora órgãos que não serão usados) e o <em>hard drive</em> cerebral vazio. Não é o mesmo que clonar a <em>Dolly</em> &#8212; em vez de um organismo inteiro e funcional, essa clonagem &#8220;tosca&#8221; produz apenas &#8220;peças de reposição&#8221;. (E o laboratório do lich pode conter um time de zumbis semi-inteligentes, produzindo partes enquanto houver matéria-prima.)</p>
<p>O embalsamamento se faz útil: no momento em que a filacteria copia <em>todos</em> os dados do cérebro-matriz, isto <em>inclui</em> a perda de capacidade proveniente do processo envelhecimento. Se uma clonagem &#8220;tosca&#8221; está disponível, nosso lich-necromante pode clonar seu corpo para a seguir embalsamá-lo e submetê-lo ao tratamento de desmorte apresentado na primeira parte do artigo.</p>
<p>Você já deve ter imaginado a essa altura: se a mente usada é uma cópia, e o corpo é outro, o lich precisa <em>realmente</em> esperar para ser destruído? Teoricamente, nada o impediria de fazer outras cópias de seu corpo e baixar neles cópias da sua mente, tendo assim diversas réplicas independentes de si, todas com sua personalidade e memórias até o momento da cópia &#8212; a partir daí, as memórias começam a ser particulares para cada réplica, mas todas estariam conectadas à filacteria, e poderiam compartilhar memórias das todas as unidades mediante atualizações regulares.</p>
<p>O efeito é o mesmo &#8212; os aventureiros &#8220;matam&#8221; o lich, mas ele não morre de verdade; a diferença é que <em>já existem</em> outras cópias ativas. A cópia que foi destruída pode ter sido usada apenas como isca, uma distração para manter ocupados os aventureiros enquanto <em>outras</em> unidades continuam com a realização dos planos do lich sem interrupções por parte de grupos intrometidos. Mas é claro que cada cópia é um indivíduo com personalidade e senso de auto-preservação. Por alguma razão uma dada unidade pode discordar, ou até se voltar contra o coletivo.</p>
<h3>Energia</h3>
<p>Mortos-vivos não possuem um metabolismo para converter alimentos em energia. O processo de construção nos informou <em>como</em> o liquidificador funciona, mas ele apenas funciona se conectado a uma tomada. O mesmo vale para os mortos-vivos.</p>
<p>Eis que voltamos a ela, a irritante <strong>energia negativa</strong>. Na falta de coisa melhor, ela serve. É demais pedir que, num golpe só, ela conserve tecidos, altere a química dos músculos e tudo o que mais precisamos para cadávers ambulantes funcionais. Mas se estas coisas <em>já estão</em> feitas, é menos forçoso pedir apenas que ela apenas dê o &#8220;choque&#8221;, sirva de tomada para fazer a máquina funcionar. Se se quiser, dá até para fazer uma analogia com o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Org%C3%B4nio"><strong>orgônio</strong></a> &#8212; ou, mais precisamente, com o <em>d-orgone</em>, a forma &#8220;negativa&#8221; desta &#8220;energia vital&#8221;.</p>
<p>Falamos em choque, e isto remete à <strong>eletricidade</strong>. O romance <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Frankenstein"><em><strong>Frankenstein</strong></em></a> de Mary Shelley foi forte em inserir em nosso imaginário o meme &#8220;descarga elétrica faz gente morte andar&#8221;. Na época em que Shelley escreveu o romance, estavam sendo conduzidos experimentos envolvendo cadáveres e eletricidade por parte de alguns cientistas. <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Luigi_Galvani"><strong>Luigi Galvani</strong></a>, um cientista italiano, descobriu que a estimulação elétrica nos nervos de uma rã morta faziam as perninhas da mesma se mexerem. Com base nessas informações, outros chegaram ao extremo (de gosto duvidoso&#8230;) de conduzir experimentos semelhantes com cadáveres humanos &#8212; às vezes em frente a uma platéia, que se apavorava ao ver cadáveres fechando as mãos ou tendo espasmos quando tinham os nervos, expostos por cortes, estimulados com eletricidade.</p>
<p>Neste ponto, a linha entre mortos-vivos, golens e outros constructos se torna difusa. Um cadáver embalsamado capaz de ação que é animado por alguma espécie de bateria ou elemental da eletricidade &#8212; morto-vivo ou golem? Tal distinção é, na minha opinião, essencialmente <em>fútil</em>. Mesmo nas regras do <em>Dungeons &amp; Dragons</em> ambos carecem de um valor de Constituição, de modo que eles são mais semelhantes do que a maioria de nós se sente confortável em admitir.</p>
<p>Se, por outro lado, o funcionamento é baseado em alguma espécie de bactéria/parasita/nanomáquina biológica, é possível que o morto-vivo de fato <em>precise</em> se alimentar &#8212; ou, mais precisamente, ingerir nutrientes para que as tais bactérias se alimentem e possam gerar os sub-produtos que mantém funcionando o corpo desmorto. Sangue e carne aparecem como as opções mais óbvias, mas nada impede altenativas mais exóticas como algum tipo específico de planta, uma solução (al)química de nutrientes&#8230;</p>
<h3>Sociedade necrofílica</h3>
<p>Nossa sociedade não vê a morte com bons olhos. E com boas razões &#8212; se alguém em nossa casa morre, é instintivo colocar o ente querido em algum local preferivelmente distante e não-visível. O corpo se decompõe, e a festa das bactérias pode provocar doenças &#8212; sem falar na nossa aversão ao odor de decomposição, que pode ser um reflexo evolutivo para nos manter longe de matéria decomposta e potencialmente perigosa. Não deve existir coisa mais desagradável do que presenciar alguém querido, que participou de momentos importantes em nossa vida, se transmutar em uma massa amorfa. E morte é o <em>fim</em> &#8212; quando alguém morre, nunca mais teremos chance de interagir com aquela pessoa; se nós morremos, nossa consciência como indivíduo chega ao fim, e não poderemos mais interagir com ninguém. E mesmo que acreditemos em  coisas como &#8220;vida após a morte&#8221;, ainda tememos a morte porque ainda se trata de uma condição clínica <em>irreversível</em>.</p>
<p>Mas um mundo de fantasia não é <em>necessariamente </em>igual ao nosso. O basicão pode ser &#8212; rotação de 24 horas e translação de 365 dias do planeta, uma gravidade que &#8220;puxa&#8221; as coisas para baixo, atmosfera rica em oxigênio, presença de macacos que evoluíram de modo a conseguir usar ferramentas e linguagem&#8230; &#8211;, mas há também as <strong>diferenças</strong>, e é ingênuo pensar que elas não influenciam a vida e a visão de mundo dos habitantes de tal mundo.</p>
<p>Portanto, em vez de jogar nossa cultura em cima de uma matriz fantástica como se ela fosse um absoluto, convém tentar saber por que pensamos as coisas desta forma e, se as condições fossem diferentes (como são em um cenário fantástico), como isso alteraria nossa percepção. Foi por isso que eu cruelmente submeti vocês a parágrafos e mais parágrafos de &#8220;Anatomia de mortos-vivos 101&#8243; &#8212; para termos uma visão palpável das coisas, sem amarras culturais, de modo que agora, conhecendo como a coisa funciona, podemos especular como as pessoas no mundo ficcional percebem e se posicional quanto a isso.</p>
<p>Vamos supor, primeiramente, uma sociedade (predominantemente) humana. Nós temos razão para torcer o nariz para a morte (e imagens, cores e símbolos associados a ela) porque morte é, para nós, o fim. Mas e se ela deixa de ser o fim, e passa a ser uma &#8220;aposentadoria&#8221; durante a qual não mais precisamos nos preocupar com coisas como envelhecimento, doenças, fome e todos os demais sub-produtos indesejáveis de nossa biologia? O morto-vivo deixa de ser uma &#8220;violação das leis naturais&#8221; e se torna uma condição <em>desejável</em>.</p>
<p>A morte se torna uma doença curável, a figura do morto (que não permanece morto por muito tempo) deixa de povoar pesadelos, se torna parte do quotidiano. A História pode se tornar mais confiável, se a prática da desmorte é adotada por tempo suficiente &#8212; eu não preciso confiar <em>apenas</em> em documentos que datam de dois séculos atrás quando eu posso entrevistar alguém que esteve presente nos eventos.</p>
<p>Se tal aposentadoria for muito cara, acessível apenas a poucos, e a sociedade tiver uma distribuição desigual de renda, símbolos associados à morte retêm parte de seu valor de medo (afinal, a maioria das pessoas ainda morre irreversivelmente), mas agora também provocam <em>revolta</em>, por serem símbolos também de uma aristocracia/burguesia/(necrocracia?) opressora.</p>
<p>Entram os &#8220;zumbis trabalhadores&#8221;. Se mantivermos o foco em uma sociedade desigual (se seu cenário de fantasia for feudal, é desigual pra caramba), famílias podem, mesmo ressentindo fazer isso, vender o corpo de um ente querido para detentores de poder e recursos (extrapolando a forma como vendemos ou doamos as roupas de parentes falecidos, por exemplo). Ou, se o cenário for medieval <em>mesmo</em>, com a presença de uma religião dominante e essencialmente mal-intencionada atuando em concerto com o Estado, padres, bispos e cardeais podem engambelar as pessoas com um &#8220;paraíso&#8221; pós-morte mais tangível &#8212; a servidão feudal continuada após o falecimento, travestida com memes de &#8220;a mais alta honra&#8221;. Se um servo feudal não imagina outra vida que não a de servo, o prospecto de ser um servo que não se cansa, nem sente fome ou angústia psicológica pode até parecer atraente.</p>
<p>Se tivermos um comércio de cadáveres em uma sociedade que não seja necessariamente feudal-desagradável como no exemplo anterior, podem haver algumas medidas para driblar o desconforto de ver a sua bisavó empilhando tijolos na construção civil. As faces de zumbis-de-trabalho podem ser desfiguradas ou substituídas por uma espécie de máscara; ou de certo há leis que postulam que cadáveres colhidos no país/reino X só podem ser postos em atividade no país Y, que é suficientemente distante (o que pode fazer certos países lucrarem um bocado com uma eventual guerra). Se o zumbi-trabalhador for suficientemente &#8220;impessoal&#8221;, o desconforto provavelmente não será maior que a comodidade te tê-los enguendo paredes ou arando a terra sob o sol escaldante &#8212; evitando que <em>você</em> precise fazê-lo.</p>
<p>Outras implicações de cunho funcional aparecem no <a href="http://www.dot20.com.br/2008/12/21/artigo-prometido-morto-ou-vivo-%e2%80%94-parte-1/"><strong>artigo sobre ressureição</strong></a> (com uma <a href="http://www.dot20.com.br/2008/12/21/artigo-prometido-%e2%80%9cmorto-ou-vivo%e2%80%9d-%e2%80%94-parte-2/"><strong>segunda parte</strong></a>) que o <strong>Leonel Domingos</strong> publicou aqui no blogue faz algum tempo. <em>Eu sei</em> que mortos-vivos não são o mesmo que ressureição, mas, na prática, funcionam de maneira semelhante &#8212; alguém dado como morto retorna ao convívio social.</p>
<h3>Religião</h3>
<p>Religião é apenas mais um dentre muitos fatores sócio-culturais, e está longe de ser a característica importante que se pode conceber, mas tem algumas particularidades interessantes. No <em>Romância</em>, por exemplo, a religião foi uma forma interessante de amarrar os <em>cadaveri</em> (a &#8220;raça&#8221; de mortos-vivos que não os vampiros) ao cenário, e tudo por causa da seguinte citação:</p>
<blockquote><p><em>Culto aos ancestrais deve ser uma idéia atraente para aqueles que estão prestes a se tornar ancestrais.</em></p>
</blockquote>
<blockquote><p>-Steve Pinker, <em>How the Mind Works</em></p>
</blockquote>
<p>E quão mais atraente essa noção se torna quando se pode continuar influenciando a sociedade mesmo depois de morto? Foi graças à dominação pela religião que os <em>cadaveri</em> (organizados em uma necro-máfia-eclesiástica) conseguiram, por um tempo, monopolizar o processo de desmorte que, sendo uma coisa desejável, lhes dava uma boa alavanca social. (O culto a ancestrais mortos-vivos também aparece no <em>Eberron</em>, com os <em>deathless</em> &#8212; que são mortos-vivos ressequidos, só que animados por energia &#8220;boazinha&#8221;, pra ninguém se sentir desconfortável com mortos-vivos diferentes de &#8220;sinônimo de vilania&#8221;).</p>
<p>Para o culto aos ancestrais ser eficaz, os tais ancestrais devem ter (ou serem percebidos como tendo) acesso <em>perfeito</em> e <em>automático</em>* às informações. O motivo é simples &#8212; é um atributo que esperamos de deuses. O bicho humano é obcecado por relações sociais, na qual a moeda é a confiança e a reputação. Não pagamos uma dívida por apreço à entidade comercial credora &#8212; o fazemos para não &#8220;sujar o nome na praça&#8221;, coisa que prejudicaria nosso &#8220;valor de confiança&#8221; futuramente. Funcionamos na &#8220;rede social&#8221; assumindo sempre que o acesso à informação por parte de outros agentes não é perfeito e nem automático &#8212; &#8220;Será que ela sabe que eu fiz tal coisa?&#8217; &#8211;, e fazemos nossas jogadas com base nessas incertezas, e aqueles com quem nos relacionados fazem o mesmo.</p>
<p>(*<em>Breaking the Spell &#8211; Religion as a Natural Phenomenon, </em>de Daniel C. Dennett)</p>
<p>Com deus, é diferente &#8212; ele <em>tem</em> acesso perfeito e automático à informação. Não se pode enganá-lo. Por isso que deuses funcionam bem como recipientes do mais alto respeito e temor. Os acentrais têm um pouco disso &#8212; sabe como você consegue esconder todo o tipo de coisas de todo mundo, mas sua mãe sempre sabe quando você mente? O ancestral tem esse poder mas, se ele estiver morto, é percebido como &#8220;fora da esfera da vida&#8221; &#8212; e essa posição externa faz dele um obervador muito mais eficaz.</p>
<p>O desmorto tem tudo isso, e mais &#8212; ele tem o &#8220;sentido de mãe&#8221;, está fora da esfera da vida mas, diferentemente dos ancestrais de religiões reais &#8212; que são apenas um construto psicológico nas mentes de quem acredita &#8212; são agentes capazes de ação concreta na sociedade. Para que possam continuar colhendo os frutos do &#8220;pacote ancestral&#8221;, é necessário que limitem o acesso à desmorte apenas para iniciados ou aqueles que de alguma forma se comprometam a perpetuar a fraude.</p>
<p>Saindo da esfera dos ancestrais, vamos a outro meme relacionado à morte que faz com que várias religiões consigam infectar a mente dos fiéis, um que é <em>realmente</em> atraente &#8212; a <strong>vida após a morte</strong>. Se a coisa já é atraente sem qualquer comprovação &#8212; alguém já te contactou do &#8220;outro lado&#8221; confirmando? &#8211;, imagine se fosse líquido e certo? A igreja controla o acesso ao processo de desmorte &#8212; se o indivíduo observa os dogmas, tem uma boa conduta e, claro, contribui com fundos, é recompensado com a vida eterna. Uma versão &#8220;inferno&#8221; pode também estar disponível: é tudo igual, mas sem as medidas anti-<em>rigor mortis</em>, transformando nosso pecador em um prisioneiro no próprio corpo &#8212; <em>para sempre</em>.</p>
<p>Ou talvez o paraíso seja, de fato, imaterial &#8212; em vez de zumbis, fantasmas <em>upload</em>. A &#8220;extrema unção&#8221; se torna o processo em que o mapa sináptico (que podem muito bem chamar de &#8220;alma&#8221;) é colhido, assegurando que aquela personalidade individual sobreviva à morte do corpo. E depois? A mente descarnada é solta para ficar zanzando por aí? Seria estranho, principalmente  tendo em vista o fato de que mentes soltas podem se modificar (e nem sempre de forma agradável). Talvez as mentes sejam descarregadas em um meio seguro e contido, algo semelhante à filacteria <em>hard drive</em>, mas &#8220;turbinada&#8221; com algum magismo de ilusão, de modo a criar uma realidade de acordo com o que é dito sobre o paraíso pós-morte nas escrituras da religião. Se mais de uma religião contar com tal serviço, a qualidade do &#8220;paraíso&#8221; pode ser crucial para ganhar fiéis. &#8220;Nosso Céu conta com diversos recursos exclusivos que a concorrência não oferece; inscreva-se agora e veja nossas opções de parcelamento do dízimo.&#8221;</p>
<p>Partindo, claro, da premissa de que <em>esse</em> paraíso também é como dizem. Tais &#8220;paraísos de 72 virgens&#8221; podem ser <em>prometidos</em>, mas nem sempre cumpridos. E se o <em>upload</em> mental não é descarregado em um desses paraísos artificiais, mas é absorvido pela própria divindade patrona da religião (assumindo que ambas rodam no mesmo meio), que dissolve a personalidade da mente descarnada e fica apenas com seus conhecimentos, de modo a suplementar sua &#8220;onisciência&#8221;? Ou pode ser algo menos obscuro &#8212; de maneira semelhante ao sumo-sacertode de Tanna-toh em <em>Tormenta</em>, as mentes podem, declaradamente, estarem destinadas a um &#8220;repositório de memórias&#8221; &#8212; &#8220;<em>Você</em> não sobrevive, mas seus conhecimentos, sim.&#8221;</p>
<p>Digamos que a religião &#8212; ou <em>outras </em>religiões, já que geralmente lidamos com politeísmo &#8212; não goste dessa tecnologia. &#8220;Contraria as leis da natureza&#8221; ou algo assim. Entram situações com que somos bem familiares &#8212; caça às bruxas, inquisição, &#8220;mortos-vivos são malignos&#8221;. Se esse tipo de religião tem poder e recursos suficientes, eles podem virtualmente levar a tecnologia de desmorte à extinção. Caso não seja suficientemente influente, podem desaprovar desde a maneira mais leve &#8212; beicinho e reprimenda &#8220;moral&#8221; &#8212; até meios mais pesados &#8212; que tal grupos da &#8220;Juventude de Khalmyr&#8221; atuando como <em>skinheads</em> &#8220;bondosos&#8221;? Uma ala mais moderada de uma religião <em>anti-undead, </em>caso venha a julgar a tecnologia como útil, ou, ao menos, como não &#8220;maligna&#8221;, pode acabar por dar origem a uma nova religião embrionária.</p>
<p>Ou pode ser que a maioria das religiões não dê a mínima. Desmorte não seria para eles um tema sensível como o uso de preservativo ou aborto &#8212; seria algo mais semelhante a carros ou computadores. Claro que isso só é possível se, em primeiro lugar, tais religiões se ocuparem de alguma outra coisa que não a obsessão pelo pós-morte.</p>
<h3>Por hoje é só, pessoal</h3>
<p>Já passamos de quatro mil palavras, logo, invoco o direito de retomar o assunto na <strong>parte 3</strong>. Finalmente colocaremos a mão na massa: como lidar com a <strong>expulsão de mortos-vivos</strong> na ausência da (irritante) energia negativa? Se eles não são mais vilões, <strong>como jogar com eles</strong> (no <em>d20 3.5</em>, ao menos) <em>sem</em> desequilibrar tudo? Discorri um monte sobre mortos-vivos intencionais, mas e os <strong>espontâneos</strong>, aqueles que aparecem às pencas em campos de batalha antigos, cemitérios e masmorras? Esqueci algum ponto de interesse? Então <strong>sugira</strong> o que pode ser abordado.</p>
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		<title>Inteligência divina, deuses desumanos e outras excentricidades</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Jun 2009 13:57:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Shido Vicious</dc:creator>
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		</div>
<p>Ou <strong>&#8220;O que podemos esperar do comportamento de um deus (e outras excentricidades divinas)&#8221;</strong></p>
<p>O que podemos esperar dos deuses? Perguntinha difícil &#8212; não é como se tivéssemos deuses morando na casa ao lado para observar ou entrevistar. Como uma enormidade de elementos em fantasia, a coisa acaba se baseando em mitologias, com adendos e customizações por parte da criatividade do autor. Deuses mitológicos costumam ser um bocado <strong>humanos</strong> &#8212; o panteão greco-romano é recheado de intriga, politicagem e doses enormes de ciúme patológico; mesmo o Jeová do judeo-cristianismo, em todo seu conceito de divindade platônica, é, no Antigo Testamento, passional até dizer chega &#8212; é ciumento, raivoso, violento&#8230;</p>
<p>Nenhum problema até termos acesso às eventuais fichas dos deuses &#8212; se, no sistema d20, pode-se dizer que alguém com Inteligência 20 é algo na divisão do Stephen W. Hawking, cujo alcance intelectual é confuso para a maioria de nós (ao menos o é para mim), o que esperar de um ente com Inteligência 40? Ou cento-e-lá-vai-pedrada? Minha primeira aposta &#8212; algo essencialmente <strong>não-humano</strong>, alienígena demais para compreender. Ou será que não?</p>
<p><span id="more-1908"></span>Recentemente, me deparei, na ficção, com as divindades mais bem desenvolvidas que já tive o prazer de ver em blocos de texto. Impressionantemente, não foi em nenhum livro de fantasia, mas, sim, na ficção científica, no <a href="http://www.dot20.com.br/2009/06/18/charles-stross-e-a-nova-cara-da-ficcao-cientifica/">Accelerando do Charles Stross</a>. A origem de tais divindades é diferente do que se vê nos mitos de &#8220;e então deus decidiu criar as coisas&#8221; &#8212; esses deuses foram criados pelos humanos. Sim, fã ardoroso da fantasia, tenha calafrios &#8212; os tais deuses são <strong>inteligências artificiais</strong>.</p>
<p>Na parte final do <em>Accelerando</em>, somos informados, através de um diálogo entre personagens, da forma como pensa uma dessas inteligências descomunais. Reproduzo o trecho devidamente traduzido.</p>
<blockquote><p><em>&#8220;Agora, a consciência. É uma coisa engraçada, não é? Produto de uma corrida armamentista entre predador e presa. Se você vê um gato espreitando um rato, pode atribuir que as intenções do gato são mais facilmente explicáveis pelo fato de que ele possui uma teoria mental em relação ao rato &#8212; uma simulação interna do provável comportamento do rato quando este percebe um predador. Para qual lado correr, por exemplo. E o gato usará sua teoria mental para otimizar sua estratégia de ataque. Por outro lado, espécies de presa suficientemente complexas para ter uma teoria mental têm vantagem defensiva se puderem antecipar as ações do predador. Eventualmente, esta corrida armamentista bem mamífera nos deu uma espécie de macaco social que usava sua teoria mental para facilitar a comunicação por sinais &#8212; para que a tribo pudesse trabalhar coletivamente &#8212; e então, reflexivamente, para simular os estados internos </em>do próprio indivíduo<em>. Some ambos, comunicação por sinais e simulação introspectiva, e o resultado será consciência de nível humano, incluindo linguagem como um bônus &#8212; sinais que transmitem informações sobre estados internos, não apenas sinais simples como &#8220;predador aqui&#8221; ou &#8220;comida ali&#8221;.&#8221;</em></p>
<p><em>(&#8230;)</em></p></blockquote>
<blockquote><p><em> &#8220;Então,&#8221; (&#8230;) &#8220;nós chegamos ao pós-humano. Não apenas nossos implantes neurais, mapeados até o nível sub-celular e executados em um ambiente emulado em um enorme computador como esse: Isto não é pós-humano, é uma enganação. Estou falando de seres que são melhores máquinas de consciência que nós, tipos meramente humanos, melhorados ou não. Eles não são apenas melhores na cooperação &#8212; veja a Economia 2.0 para uma demonstração clássica disso &#8211;, mas melhores na </em>simulação<em>. Um pós-humano pode construir um modelo interno de uma inteligência humana que é, bem, tão cognitivamente forte quanto o original. Você ou eu podemos pensar que sabemos o que move outras pessoas, mas geralmente erramos, ao passo que verdadeiros pós-humanos podem realmente nos simular, estados internos e tudo o mais, e acertar. (&#8230;)&#8221;</em></p></blockquote>
<p>Não é o tipo de mente que se esperaria ver participando de picuinhas de humanos, certamente &#8212; eles estão por demais <strong>acima</strong> disso. E, se lidamos diretamente com um ser de tal consciência, ele <strong>sempre</strong> vai levar a melhor &#8212; nesse caso, nós podemos, <em>de fato</em>, atribuir a esses entes o atributo da onisciência.  Ele pode não saber de <strong>tudo</strong>, mas, <strong>em relação a nós</strong>, ele <strong>sabe</strong>.</p>
<p><strong>Juízo final!</strong></p>
<p>Em relação a consciências assim, somos como uma rã em comparação com um humano. Eles poderiam simplesmente se livrar de nós. Se o cenário possui deuses <em>e </em>seres humanos (atarracados ou não, com ou sem orelhas estranhas), quer dizer que aqueles decidiram não fazê-lo. Por quê? Vai saber. Algum tipo de excentricidade, filantropia greenpeaceana, ou só o prazer de possuir uma fazenda de formigas. Talvez curta animais de estimação &#8212; ou seja um sádico que &#8220;esmaga formigas&#8221; explodindo cidades. Tudo isso apoiado em motivos que não podemos sequer imaginar.</p>
<p>O Charless Stross chega a desenvolver uma situação em que há uma dessas A.I.s &#8220;divinas&#8221; que escolhe ter humanos zanzando por aí.  O tema aparece nos romances <em>Singularity Sky</em> e <em>Iron Sunrise</em>, na forma do Escathon, um <em>plot device </em>poderosíssimo &#8212; essa A.I. descomunal resolveu, em certo momento (lá pelo fim do séc. XXI ou um pouco depois, não recordo) reduzir a população da Terra (então uns 10 bilhões) para algo em torno de 2 bi. Como? Transportou populações inteiras, via <em>wormhole</em>, para outros planetas habitáveis (ou não-habitáveis com suficiente <em>terraforming</em> feita de antemão), resultando em um universo bem aasimoviano de &#8220;humanos em tudo o que é planeta&#8221;. O Escathon já deixa claro &#8220;Não sou seu deus, eu descendi de vocês&#8221;, e, escrito em monolitos enormes em cada planeta, faz sua única exigência &#8212; &#8220;Não violarás a causalidade dentro do meu <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Light_cone">cone de luz</a>. Caso contrário&#8230;&#8221; O motivo é fácil de se entender &#8212; com a possibilidade de viajar mais rápido que a luz, tem-se, efetivamente, viagem no tempo. Então é perfeitamente possível &#8220;voltar no tempo&#8221; e editar o Escathon fora da história. E ele, claro, não gosta da idéia &#8212; e tem por hábito explodir sistemas solares que contenham planetas com gente que tente fazê-lo. Ou, em casos mais brandos, emprega agentes (humanos que não querem sistemas solares explodindo) para frustrar, de forma discreta, tais tentativas.</p>
<p>Em um cenário de fantasia medieval politeísta (mesmo quando este não passa de um monoteísmo com roupas engraçadas), a coisa pode ser parecida. <em>Por que</em> os deuses mantém os humanos/óides por aí ainda é uma incógnita, mas eles possuem algumas vontades que conseguimos compreender (&#8220;não ferre com a História no meu cone de luz!&#8221;) e empregam agentes para frustrar intenções adversas às suas (que, nesse caso, podem ser a intenções de <em>outras</em> divindades).</p>
<p>Esta última frase me deixa com uma pulga atrás da orelha &#8212; divindades seriam, em teoria, ótimas na cooperação e fariam a alocação de recursos da forma perfeitamente eficaz*.  Mas&#8230; e se os recursos de que elas dependem forem escassos? Escassos a ponto de, mesmo com uma divisão otimizada, não serem suficientes para garantir a sobrevivência de todos, fazendo necessário algo barbárico como a competição, uma relação de soma zero?  Entra em cena o mercado de fiéis.</p>
<p>*(Também é possível que sejam A.I.s tão diferentes entre si a ponto de a incompatibilidade impossibilitar a cooperação &#8212; mas vamos assumir que não. Deuses em RPGs podem possuir personalidades distintas, mas, de modo geral, o chassis é o mesmo, e poderiam ser, portanto, suficientemente inteligentes para praticar uma distribuição ótima de recursos a despeito de divergências menores, dado que tais recursos sejam suficientemente abundantes.)</p>
<p><strong>Mercado da fé<br />
</strong></p>
<p>Se você já leu sobre os deuses de um dado cenário, você certamente esbarrou com esta informação: <strong>os deuses dependem da crença dos fiéis para existir</strong>. Se a divindade perde popularidade demais, ela fica subnutrida e caquética; se o seu culto bomba, ela fica bombadona. No <strong>Tormenta</strong> isso fica bem evidente &#8212; a Glórienn, a deusa dos elfos, perdeu enorme quantidade de poder quando a fé nela foi severamente abalada, por pouco não perdendo seu status de divindade. A razão disso nunca é explicada, mas é incontestável o fato de que, em cenários que seguem esse modelo, deuses <em>terão</em> interesse em interferir nos assuntos humanos/óides visto que, por alguma razão, eles dependem da crença das &#8220;formiguinhas&#8221;. E somos levados a crer que a fé das criaturas do plano material é um recurso escasso.</p>
<p><strong>Deuses-memes</strong></p>
<p>Este paradigma, deuses dependem de fé para existir, optei por usar no <strong>Romância</strong>, com uma tentativa de explicação pseudo-científica-mirabolante. Funciona mais ou menos assim: é postulada a existência do éter &#8212; semelhante ao <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89ter_lumin%C3%ADfero">éter luminífero</a> dos vitorianos, é o meio em que se propagam ondas eletromagnéticas (luz, eletricidade, magnetismo&#8230;), que são, com algumas forçações de barra, a base da magia no cenário. Para ferrar ainda mais, esse éter é semelhante  aos componentes subatômicos descritos no livro charlatão <a href="http://www.chem.yale.edu/~chem125/125/history99/8Occult/OccultAtoms.html"><em>Occult Chemistry</em></a> &#8212; &#8220;partículas de éter&#8221; podem se agregar, formando prótons e seus coleguinhas (e estes formam os átomos, que formam moléculas que compõem as coisas que existem por aí). Estas &#8220;moléculas de éter&#8221; podem formar estruturas que não são compostas por suficientes partículas a ponto de formar um próton (ou nêutron, etc.). Estas estruturas &#8220;semi-materiais&#8221;, em suas formas mais simples, são usadas como &#8220;alavancas&#8221; telecinéticas, &#8220;martelos&#8221; de força invisível, &#8220;canaletas&#8221; para guiar descargas energéticas&#8230; &#8212; mas, da mesma forma que a evolução, em milhões de anos, fez surgir nós e outros organismos vivos a partir de átomos e moléculas simples, essas &#8220;moléculas de éter&#8221; semi-materiais deram origem a uma &#8220;fauna etérica&#8221;. A maioria não passa de &#8220;bactérias&#8221; (que podem ou não causar &#8220;doenças mágicas&#8221;), &#8220;animais&#8221; como elementais que &#8220;pegam carona&#8221; em fogo, eletricidade, terra, etc. &#8212; mas se formaram também uns poucos organismos <em>realmente</em> complexos &#8212; deuses.</p>
<p>Eles não criaram o mundo nem nada assim &#8212; mas eles querem que você acredite nisso porque lhes é conveniente. Os deuses descobriram que podiam aumentar de tamanho anexando certas estruturas a si &#8212; os <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Meme"><strong>memes</strong></a>. Como a atividade cerebral consiste de impulsos elétricos (que, como eletromagnetismo, se propagam dentro do éter, segundo o modelo do cenário), idéias e pensamentos na mente das pessoas possuem estrutura etérica, e os deuses, &#8220;programas de computador&#8221;, &#8220;inteligências artificiais&#8221; etéricas, são feitos de estrutura parecida, logo, podem se anexar a memes ou memeplexos (conjuntos de memes) &#8212; que passam a se comportar como prolongamentos da divindade, facilitando a onipresença pois, se alguém contaminado pelos memes do deus está em algum lugar, parte do deus também está lá.</p>
<p>Aí a escolha de memeplexos (pense nos &#8220;portfólios&#8221; das divindadades) vai pelo gosto de cada deus &#8212; deuses mais palatáveis, como Vitória ou Sophia, se anexaram a memes de esclarecimento, auto-perfeição e liberdade de pensamento, de modo que seus &#8220;hospedeiros&#8221; sejam mais flexíveis e vivam vidas melhores &#8212; não por afeição ou coisa assim, mas sim porque apostam que agentes mais satisfeitos são melhores trabalhadores. Outros mais expansionistas, como Morgenstern, se anexaram a memes atraentes, mas que não correspondem a fatos da realidade, como uma vida após a morte (com recompensa ou punições de acordo com ações em vida), repúdio ao conhecimento (de modo que os fiéis não &#8220;esbarrem&#8221; em informação que contradiga os memes eficazes-mas-falsos), divisão rígida de gêneros (homens são &#8220;guerreiros defensores&#8221; e &#8220;chefes&#8221;; mulheres são &#8220;parideiras&#8221; &#8212; para gerar mais fiéis e soldados), entre outros, eficazes para aumentar e controlar a massa de fiéis, mas não necessariamente bons <em>para os hospedeiros</em>.</p>
<p>Nesta situação, faz sentido que os deuses queiram se meter nos assuntos mortais. Claro que isto dá margem para que os deuses se tornem titereiros invisíveis dentro do cenário, moldando as idéias das pessoas e até culturas inteiras para que se conformem a seus propósitos. Embora isto possa parecer indesejável para muitos (ninguém quer que sua liberdade seja apenas ilusória), a conjuntura do &#8220;titereiro invisível&#8221; pode gerar boas idéias de histórias:</p>
<p>a. Se os deuses não forem totalmente super-poderosos (a ponto de sempre esmagar a oposição com relâmpagos e <em>nukes</em>), descrentes insatisfeitos com o rumo da sociedade podem empreender uma &#8220;guerra de informação&#8221;, de modo a virar a mesa da opinião pública, enfraquecendo o memeplexo da divindade a ponto de conseguir extingui-la.</p>
<p>b. Suponhamos que as divindades não se utilizem dos memeplexos, mas sejam, na verdade, memeplexos que &#8220;ganham vida&#8221; porque [insira motivo aqui; pode ser "campo geral de magia que envolve o plano material"], sendo, portanto, reflexos dos desejos e medos das pessoas. Algum grupo de agentes pode querer se utilizar disso, conquistando e convertendo com eficiência militar, de modo a &#8220;criar&#8221; um novo deus de acordo com seus desígnios. (Matar um deus pode ser motivo de uma aventura épica emocionante, mas <em>criar</em> um deus pode ser uma aventura épica mais interessante ainda.)</p>
<p>c. Conserto de deuses: similar aos dois primeiros, mas sem criar ou extinguir ninguém. Um governo pode estar preocupado com o rumo que uma dada religião está tomando, e os personagens são incluídos em uma enorme operação cujo objetivo é fazer cair em descrença um ou mais memes considerados perigosos no memeplexo de uma divindade, retirando as presas venenosas da serpente.</p>
<p>Se assumimos este modelo como verdadeiro, então <strong>deuses = religiões</strong>. Costumo assumir que religiões são bastante diferentes dos deuses &#8212; divindades são distantes, e, quando os pais estão fora, as crianças fazem bagunça; as religiões se tornam algo que aos poucos desvia da personalidade da divindade, a estrutura eclesiástica cada vez mais colorida por politicagem e mesquinharia tipicamente humanas. Mas se os deuses <strong>são </strong>os memeplexos que formam as religiões, então as religiões são indistinguíveis das próprias divindades.</p>
<p>Se os meme(plexo)s são parte do &#8220;corpo&#8221; do deus, todo fiel suficientemente fervoroso possui parte do poder da divindade dentro de si. Nesse caso, <strong>todo fiel é um paladino</strong>, por assim dizer &#8212; além da configuração &#8220;guerreiro + conjurador divino fraco&#8221; que é o paladino original, podemos ter outras, como &#8220;ladrão + conjurador divino&#8221;, &#8220;bardos divinos&#8221; e &#8220;feiticeiros divinos&#8221; (esse último já existe, o <em>Favored Soul</em>).</p>
<p>Como divindades são um reflexo da crença das pessoas, elas podem <strong>ser absolutamente boas ou más</strong> &#8212; elas o são, afinal, dentro dos parâmetros daquilo que as pessoas consideram bom ou mau. (Claro que, se um ou mais segmentos da sociedade não concordarem, pode haver edição ou extinção de deuses.)</p>
<p><strong>Deuses alienígenas</strong></p>
<p>Não, eles não chegam em disco voador (em Varginha ou qualquer outro lugar), nem são cinzentos, cabeçudos e com olhões. É o padrão que se vê por aí &#8212; deuses são criaturas &#8220;de fora&#8221;, os &#8220;extraplanares poderosos&#8221;. É possível que ainda se &#8220;alimentem de fé&#8221;, mas pode não ser o caso. Isto é espinhoso de desenvolver, já que deuses seriam, de fato, inteligências realmente alienígenas e incompreensíveis. Religiões podem não corresponder com exatidão à personalidade do deus &#8212; que só vai &#8220;sugerir&#8221; modificações caso o rumo das coisas não seja útil para seus objetivos. Objetivos, aliás, que os personagens podem <em>pensar</em> entender, sem nem sequer imaginar que toda sua teologia e conhecimento sobre as relações dos deuses são apenas reflexo da camada mais superficial de uma rede infinitamente complexa de manipulação. Clérigos podem receber poder desses seres &#8212; ou <em>pensar</em> que recebem, sendo as magias divinas meramente magia arcana cujo domínio é alcançado via auto-sugestão alimentada pela crença na entidade superior. E esses clérigos podem ser bem atuantes, já que a divindade, inteligência alienígena demais, não se mete nas picuinhas humanas, raramente (ou nunca) interferindo de forma direta.</p>
<p>Nesta situação, não tente lubidriar ou lutar contra esses deuses &#8212; eles são inumanos demais para serem seguros, e suficientemente inteligentes para sempre levar a melhor.</p>
<p><strong>Memes vs. aliens<br />
</strong></p>
<p>Pode ser no mínimo curioso usar ambos modelos simultaneamente. A escala de poder divino seria uma só, mas as origens dos deuses são distintas. Como exercício meramente especulativo (e não-oficial, que fique bem claro), apliquemos isto a Tormenta. Nimb, o deus do caos, pode ser uma divindade alienígena &#8212; e faria sentido, já que ele é suficientemente incompreensível. Khalmyr, por outro lado, seria um deus-meme, que foi sendo criado pelas pessoas à medida que a civilização nascia, como uma reação à violência e à desordem do mundo não-civilizado, e que hoje está tão arraigado na mente das pessoas que rivaliza com o deus-caos alienígena. Como Khalmyr tem base nas crenças de ordem e civilização das pessoas, é, até certo ponto, humanamente compreensível, ao passo que Nimb, alienígena, não. Já os lefeu são os deuses alienígenas por excelência, e do tipo &#8220;ruim&#8221; &#8212; expansionista sem muito apreço por humanos. São tão estranhos e mutáveis que um deles &#8212; Aharadak, lorde de Zakharov &#8212; está considerando usar um memeplexo religioso como arma.</p>
<p><strong>Fechando</strong></p>
<p>Lembre-se: deuses são inteligentes demais para serem usados levianamente ou como NPCs &#8220;comuns&#8221; que tomaram algumas doses de esteróides de onipotência, só aparecendo para resolver alguma coisa. Eles são algo <strong>realmente</strong> diferente e, mesmo sendo fodidamente poderosos, não precisam necessariamente roubar os holofotes (que <strong>devem</strong> ser direcionados aos personagens dos jogadores). Eles não aparecem e resolver ou ferram algo por nada &#8212; ações de deuses são mais críveis se fizerem parte de um programa realmente complexo, um plano que pode apenas se aproximar de algo que pareça conclusão após uma campanha inteira. Use a abuse dessas inteligências massivas e incompreensíveis &#8212; aventuras interessantes (e com reviravoltas surpreendentes) podem sair daí.</p>
<p>(E tentemos resistir um pouco à &#8220;segregação <em>geek</em>&#8220;. Em vez de nos concentramos apenas em nossas diferenças &#8212; esta ou aquela edição de um jogo, fantasia vs. ficção científica &#8211;, vamos focar no ponto comum: é tudo coisa de nerd. Em vez de dividir rigidamente fantasia e sci-fi, usemos o que for bom dentro de ambos os gêneros. É tudo <em>geek</em> e, portanto, <em>geek-friendly</em>.)</p>
<p><strong> </strong></p>
<img src="http://www.dot20.com.br/?ak_action=api_record_view&id=1908&type=feed" alt=" Inteligência divina, deuses desumanos e outras excentricidades"  title="Inteligência divina, deuses desumanos e outras excentricidades" />

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		<title>O Capelão de Batalha: classe de prestígio para D&amp;D</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Mar 2009 14:08:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adão Pinheiro</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sistema d20]]></category>
		<category><![CDATA[Capelão de Batalha]]></category>
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		</div>
<p>Cá estou eu, há meses sem postar, trabalhando feito um escravo e estudando feito um condenado! Pois é amigo, faculdade e horas extras tiram a vida social de qualquer um. Mas, finalmente consegui tirar um tempo pra postar uma Classe de Prestígio que tava há muito esperando por uma atualização. Como minha classe preferida é o clérigo, nada mais natural que uma CdP pra ele.</p>
<h3>O CAPELÃO DE BATALHA</h3>
<p>Capelães de Batalha são servos fervorosos de suas divindades, e mestres no manejo de tropas em combate. Como clérigos, eles rezam pela paz, mas como soldados, estão sempre preparados para a guerra. Eles são capazes de imbuir o coração de seus aliados com uma poderosa força de vontade, fazendo-os lutar além de seus limites.</p>
<p>Capelães recebem treinamento intensivo em combate, atuando como peças chave para evitar ou causar confrontos. Eles passam boa parte do tempo estudando táticas, treinando com armas e armaduras, ou auxiliando o exército local. Extremamente ligados à hierarquia militar, eles raramente participam de aventuras, e quando o fazem, é para o bem maior de seu exército e nação.<span id="more-1172"></span></p>
<h3>Requerimentos</h3>
<p>Para se tornar um Capelão de Batalha, o personagem deve preencher os seguintes requerimentos:<br />
<strong>Combate</strong>: BBA +3.<br />
<strong>Perícias</strong>: Conhecimento (História) e Diplomacia 8 graduações.<br />
<strong>Talentos</strong>: Magia em Combate.<br />
<strong>Magias</strong>: Capaz de lançar magias divinas de 3º nível e ter acesso a um dos seguintes domínios: Destruição, Força, Guerra ou Proteção.<br />
<strong>Especial</strong>: Capaz de Expulsar Morto-vivos como qualidade de classe.</p>
<h3>Qualidades de Classe</h3>
<p><strong>Pontos de Vida</strong>: d8 + Constituição por nível<br />
<strong>Pontos de Perícia</strong>: 2 + Inteligência por nível<br />
<strong>Perícias de Classe</strong>: Adestrar Animais, Cavalgar, Concentração, Conhecimento (História e Religião), Diplomacia, Escalar, Identificar Magia, Intimidar, Ofícios, Nadar e Sentir Motivação.<br />
<strong>Magias Adicionais</strong>: Um Capelão de Batalha recebe magias adicionais com um clérigo, e seus níveis nestas classes acumulam para todos os efeitos de magias de clérigo.<br />
<strong>Usar Armas e Armaduras</strong>: O Capelão de Batalha recebe treinamento intenso de combate. Ele sabe usar armas e armaduras como um guerreiro (armas simples e comuns, armaduras leves, médias e pesadas, e todos os tipos de escudos).</p>
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<div>
<table class="MsoTableLightShading" style="border: medium none; border-collapse: collapse;" border="1" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><strong><span style="font-size: 9pt; color: black;">Nível</span></strong></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><strong><span style="font-size: 9pt; color: black;">BBA</span></strong></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><strong><span style="font-size: 9pt; color: black;">Fortitude</span></strong></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><strong><span style="font-size: 9pt; color: black;">Reflexos</span></strong></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><strong><span style="font-size: 9pt; color: black;">Vontade</span></strong></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><strong><span style="font-size: 9pt; color: black;">Especial</span></strong></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><strong><span style="font-size: 9pt; color: black;">Magias</span></strong></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">1</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+0</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+0</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">Expulsar Morto-vivos, Domínio Bônus</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1 nível existente de classe divina</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">2</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+2</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+0</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+2</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">1º Domínio Aprimorado, Inflamar</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1 nível existente de classe divina</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">3</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+2</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+2</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+2</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">Ceia de   Batalha</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1   nível existente de classe divina</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">4</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+3</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+3</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+3</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">-</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1 nível existente de   classe divina</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">5</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+3</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+3</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+3</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">Imunidade ao Medo</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1   nível existente de classe divina</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">6</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+4</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+4</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+2</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+4</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">Frenesi de Batalha</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1 nível existente de   classe divina</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">7</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+5</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+4</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+2</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+4</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">2º Domínio Aprimorado</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1   nível existente de classe divina</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">8</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+6</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+5</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+2</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+5</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">-</span><em></em></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1 nível existente de   classe divina</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">9</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+6</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+5</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+3</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+5</span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">Aura de Medo </span></p>
</td>
<td style="border: medium none; padding: 0cm 5.4pt; background: silver none repeat scroll 0% 0%; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1   nível existente de classe divina</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 33.85pt;" width="45" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">10</span></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 29.75pt;" width="40" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+7</span></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 45.65pt;" width="61" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+6</span></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 42.6pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+3</span></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 42.75pt;" width="57" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+6</span></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 138pt;" width="184" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">Até a Morte!</span></p>
</td>
<td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 139.45pt;" width="186" valign="top">
<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; line-height: normal;"><span style="font-size: 9pt; color: black;">+1 nível existente de   classe divina</span></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p><strong>Expulsar Morto-vivos (Sob)</strong>: Os níveis de Capelão de Batalha acumulam com os níveis de clérigo para calcular os bônus de Expulsar (ou Fascinar) Morto-vivos.</p>
<p><strong>Domínio Bônus (Ext)</strong>: No 1º nível de classe, o Capelão recebe um domínio adicional, que deve ser Destruição, Força, Guerra ou Proteção. Seus níveis de capelão de batalha são somados aos níveis de clérigo para calcular os bônus deste domínio.</p>
<p><strong>Domínio Aprimorado (Ext)</strong>: O Capelão de Batalha, ao atingir o 2º nível, eleva seus conhecimentos sobre um de seus domínios de capelão (Destruição, Força, Guerra ou Proteção). Ele deve escolher uma das habilidades abaixo, além de possuir o domínio relevante. Ele recebe outro Domínio Aprimorado no 7º nível. Nestes domínios aprimorados, os níveis de Capelão acumulam com os níveis de clérigo para calcular os bônus fornecidos.</p>
<p><em>Destruição</em>: Recebe duas utilizações diárias do poder de domínio.</p>
<p><em>Força</em>: O poder de domínio dura por uma quantia de rodadas igual ao bônus de Sabedoria do Capelão de Batalha.</p>
<p><em>Guerra</em>: Adiciona o bônus de Sabedoria ao dano quando utiliza a arma predileta de sua divindade.</p>
<p><em>Proteção</em>: O Capelão adiciona o seu bônus de Sabedoria aos testes de Resistência.</p>
<p><strong>Inflamar (Ext)</strong>: O Capelão de Batalha sabe usar seus conhecimentos de guerra e sua confiança para motivar e guiar seus aliados. Com uma ação de rodada completa, o capelão faz com que todos os aliados (incluindo o capelão de batalha) a até 3m por nível nesta classe recebam um bônus de moral igual ao seu nível nesta classe em testes de resistência e perícias, e ½ do nível em testes de ataque e dano. Os aliados precisam ver ou escutar (e entender) o Capelão para receberem o bônus. Este bônus dura por 1 rodada por nível de Capelão de Batalha.</p>
<p><strong>Ceia de Batalha (SM)</strong>: O Capelão de Batalha, ao atingir o 3º nível, pode conjurar <em>Banquete dos Heróis</em> até 3 vezes ao dia.</p>
<p><strong>Imunidade ao Medo (Ext)</strong>: Um Capelão de Batalha de 5º nível domina todos os aspectos emocionais de uma guerra, tornando-se imune a quaisquer efeitos de medo. Aliados a até 3m do Capelão adicionam +4 aos seus testes de Vontade contra medo.</p>
<p><strong>Frenesi de Batalha (SM)</strong>: Ao atingir o 6º nível, o Capelão de Batalha é capaz de lançar a magia <em>Velocidade</em>, como um mago de mesmo nível de personagem, até 3 vezes ao dia.</p>
<p><strong>Aura de Medo (Sob)</strong>: Ao atingir o 9º nível, o Capelão de Batalha se torna uma imagem firme e suprema de terror aos seus inimigos. Cada oponente que se aproxime a 3m ou menos do capelão deve vencer um teste de Vontade (CD 10 + níveis de capelão + bônus de Carisma do capelão), ou ficará <em>amedrontado</em>. Um oponente que tenha passado no teste fica imune a este efeito durante 24h.</p>
<p><strong>Até a Morte! (Sob)</strong>: No 10º nível, o capelão é capaz manter seus aliados lutando sob qualquer circunstância. Qualquer aliado a até 3m por nível de capelão permanece lutando, mesmo com PVs negativos, enquanto durar o combate, ou enquanto o capelão estiver consciente.</p>
<p><strong>P.S.</strong>: Eis que na sexta feira passada estávamos eu e o Nume conversando enquanto esperávamos nossos “X-Bacon com galinha com carne com maionese caseira”. Durante a conversa, o Nume comentou sobre os <em>Game Day</em>, e que estava pensando num para promover o lançamento do <strong>Tormenta RPG</strong>. Daí eu prontamente disse: &#8211; Vai se chamar “Dia de Tormenta”. E não é que na segunda feira seguinte aparece, na capa do <em>Diário Catarinense</em>, uma foto de tempestade, com a seguinte chamada: “Um Dia de Tormenta”. Eu vou ter que achar aquele jornal, escanear e atualizar neste post (ou fazer um novo, sei lá). <strong>Os lefeu estão invadindo Santa Catarina!</strong></p>
<img src="http://www.dot20.com.br/?ak_action=api_record_view&id=1172&type=feed" alt=" O Capelão de Batalha: classe de prestígio para D&D"  title="O Capelão de Batalha: classe de prestígio para D&D" />

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<li><a href='http://www.dot20.com.br/2009/03/21/classe-e-ou-classe-faz/' rel='bookmark' title='Permanent Link: Classe é ou classe faz?'>Classe é ou classe faz?</a></li>
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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Para o inferno com os paladinos bonzinhos!</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Jan 2009 17:45:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Shido Vicious</dc:creator>
				<category><![CDATA[Adaptações]]></category>
		<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Sistema d20]]></category>
		<category><![CDATA[Absolutos morais]]></category>
		<category><![CDATA[Clérigo]]></category>
		<category><![CDATA[Paladino]]></category>
		<category><![CDATA[Politeísmo]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Tormenta]]></category>

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<li><a href='http://www.dot20.com.br/2009/03/12/o-capelao-de-batalha-classe-de-prestigio-para-dd/' rel='bookmark' title='Permanent Link: O Capelão de Batalha: classe de prestígio para D&#038;D'>O Capelão de Batalha: classe de prestígio para D&#038;D</a></li>
</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="tweetmeme_button" style="float: right; margin-left: 10px;">
			<a href="http://api.tweetmeme.com/share?url=http%3A%2F%2Fwww.dot20.com.br%2F2009%2F01%2F28%2Fpara-o-inferno-com-os-paladinos-bonzinhos%2F"><br />
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			</a>
		</div>
<p>Embora rolem discussões bacanas no fórum da Jambô, volta e meia eu me deparo com coisas como:</p>
<p><em><span class="postbody">Assim, como os Elfos, os Vikins </span></em><span class="postbody">[sic]</span><em><span class="postbody"> criaram uma versão, os Celtas outra, Tolkken </span></em><span class="postbody">[sic] </span><em><span class="postbody">outra e o D&amp;D outra. Cada um Com a sua Versão, q não está errada, pq no D&amp;D Livro do Jogador diz q o Paladino é assim embora mais tarde eles criaram as Variações de Campeões, Paladino é esse ser de estrema </span></em><span class="postbody">[sic] </span><em><span class="postbody">Bondade e senso de justiça.</span></em></p>
<p><span class="postbody">Difícil não revirar os olhos. O ponto é: 9 entre 10 cenários de fantasia são politeístas. Essa polarização de bem-mal é coisa de religião monoteísta judeo-cristã, gente! No politeísto temos <em>mais</em> que bom e mau &#8212; existe bêbado, megera, mortuário, artístico, belicoso, ninfomaníaco, doido varrido, anal-retentivo e por aí vai, sem quaisquer rótulos morais de bondade e maldade &#8212; todos os predicados, no politeísmo, têm igual importância. </span></p>
<p><span class="postbody">Nessa conjuntura, o que impede os deuses &#8220;não-bons&#8221; de terem seus campeões guerreiros? Esses campeões <em>precisam</em> estar ligados à bondade ou à maldade, necessariamente, mesmo não se tratando de monoteísmo? Seria errado usar a palavra &#8220;paladino&#8221; para designar esses campeões divinos &#8220;pouco ortodoxos&#8221;? A resposta para essas perguntas, como veremos a seguir, é um sonoro &#8220;não&#8221;.<br />
</span></p>
<p><span class="postbody"><span id="more-965"></span>Paladino. Vamos largar o Livro do Jogador um segundo (que, aliás, na versão 3.5, de que tratamos aqui, nem mais possui o &#8220;sagrado&#8221; suporte oficial) e nos concentrar no conceito real. Recorro ao meu querido Dicionário Priberam Online:</span></p>
<p><span class="postbody"><em>paladino</em></span></p>
<p><em><span id="lblDlpoDefinicao"><span><span class="texto">do Fr. ant.  			 paladin &lt; <span title="Latim">Lat. </span> palatinu</p>
<p><span class="categoria"><span title="substantivo masculino">s. m.</span></span>,</p>
<div style="padding-left: 20px; line-height: 16px;"><span style="cursor: pointer;" ondblclick="javascript:SeleccionaEntrada_v2(getSel(),'0')">cada um dos principais cavaleiros que acompanhavam Carlos Magno na guerra;<br />
</span></div>
<div style="padding-left: 20px; line-height: 16px;"><span style="cursor: pointer;" ondblclick="javascript:SeleccionaEntrada_v2(getSel(),'0')">cavaleiro andante;<br />
</span></div>
<div style="padding-left: 20px; line-height: 16px;"><span style="cursor: pointer;" ondblclick="javascript:SeleccionaEntrada_v2(getSel(),'0')">campeão;<br />
</span></div>
<p><span class="propriedade"><span title="figurativo">fig.</span></span>,</p>
<div style="padding-left: 20px; line-height: 16px;"><span style="cursor: pointer;" ondblclick="javascript:SeleccionaEntrada_v2(getSel(),'0')">defensor dedicado, estrénuo;<br />
</span></div>
<p><span class="propriedade"><span title="Antigo">ant.</span></span>,</p>
<div style="padding-left: 20px; line-height: 16px;"><span style="cursor: pointer;" ondblclick="javascript:SeleccionaEntrada_v2(getSel(),'0')">pequeno palácio;<br />
</span></div>
<p><span class="categoria"><span title="adjectivo">adj.</span></span>,</p>
<div style="padding-left: 20px; line-height: 16px;"><span style="cursor: pointer;" ondblclick="javascript:SeleccionaEntrada_v2(getSel(),'0')">notório, público;<br />
</span></div>
<div style="padding-left: 20px; line-height: 16px;"><span style="cursor: pointer;" ondblclick="javascript:SeleccionaEntrada_v2(getSel(),'0')">sabido, comum.</span></div>
<p></span></span></span></em></p>
<p><span class="postbody">A grande maioria dos cenários sem problemas intestinais não possuem um Carlos Magno, então, nos concentremos nos demais significados. </span><span class="postbody">Alguém aí viu as palavras &#8220;bondade cristã&#8221;, &#8220;justiça baseada em absolutos morais&#8221; ou coisa parecida? Pois é, nem eu. </span><span class="postbody">Logo, o subterfúgio com que muitos se sentem quentinhos e confortáveis, o uso da palavra &#8220;campeão&#8221;, é desnecessário. É campeão de um deus? Então é paladino, não importa o deus.<br />
</span></p>
<p><span class="postbody">Cortemos a cena para o clérigo. O clérigo nada mais é que um paladino menos porradeiro, nem mais, nem menos. É um religioso guerreiro/milagreiro, como o paladino, só que em diferentes proporções mecânicas &#8212; não um sacerdote oficiante ou coisa parecida, como muitos podem pensar. (Para um sacerdote mais milagreiro e menos porradeiro que o clérigo, um clérigo não-guerreiro, sugiro esta <a href="http://www.wakinglands.com/pdf_files/d%2Bd_priest.pdf">variante mui bacana</a>).</span></p>
<p><span class="postbody">Consertar o paladino para que funcione em cenários politeístas <em>coerentes</em> (i.e. que não sejam impregnados de judeo-cristianismo, com o politeísmo sendo uma mera fachada decorativa) é bem simples &#8212; basta obter o &#8220;código fonte&#8221; da mecânica do paladino. Com base no que a mecânica existente quis &#8220;dizer&#8221; em termos de regras, basta usar a mesma estrutura para que &#8220;diga&#8221; outra coisa.<br />
</span></p>
<p><span class="postbody"><em>Aura do Bem: </em>Essa é fácil, basta substituir por uma aura de tendência apropriada. Se se quiser retirar um pouco do peso das tendências nas regras, basta postular uma &#8220;aura divina&#8221; &#8212; em situações em que isso for relevante, a aura passa a informação de &#8220;conexão divina aqui&#8221;. Talvez um teste de Conhecimento (Religião) &#8212; ou qualquer outra coisa apropriada &#8212; possa indicar mais detalhes &#8212; &#8220;A aura daquele sacerdote possui fortes impregnações de sentimentos como ira e beligerância &#8212; é provável que se trate de um paladino devotado a uma divindade da guerra.&#8221;</span></p>
<p><span class="postbody"><em>Detectar o Mal: </em>O que é o mal além de &#8220;a opção de meus inimigos&#8221;? Na ausência de um mal artificialmente absoluto, a definição mais lógica é: &#8220;para uma divindade, o mal é aquilo a que ela se opõe&#8221;. Onde se ler &#8220;mal&#8221;, é mais coerente interpretar &#8220;inimigo da fé&#8221; (que, para os adeptos da dita fé, são, de fato, gente ruim). Isso deixa as coisas mais subjetivas e potencialmente interessantes &#8212; cada divindade tem seus inimigos da fé que, a despeito de tendência, &#8220;disparam o positivo&#8221; na detecção. Em Tormenta, por exemplo, o inimigo da fé do Megalokk, deus dos monstros, pode ser definido como &#8220;todo e qualquer humanóide racional&#8221;; para Tanna-toh, deusa do conhecimento, podem ser &#8220;humanóides racionais que recusem a civilização e a cultura&#8221; (ou bárbaros, se quisermos simplificar); para Tenebra, deusa das trevas, pode ser &#8220;canalizadores de energia positiva&#8221;, e por aí vai.  O único &#8220;malefício&#8221; disso <em> </em>é forçar os demais jogadores a pensar um pouco quando o paladino do grupo afirmar com convicção que &#8220;Ei, aquele cara é <em>mau</em>!&#8221;</span></p>
<p><span class="postbody"><em>Destruir o Mal: </em>Não toque na mecânica, apenas aplique-a sob as mesmas diretrizes de detecção expostas acima.</span></p>
<p><span class="postbody"><em>Graça Divina: </em>Não há por que mexer nesse. Significa que o paladino é agraciado por uma divindade, seja ela qual for, sendo mais resiliente como resultado.</span></p>
<p><span class="postbody"><em>Cura pelas Mãos: </em>Esse é um pouco mais complexo, mas não intransponível. No cânone D&amp;Dêico, cura é efeito da energia positiva, a das coisas vivas, que é oposta à energia negativa, ligada às coisas mortas. Não precisam ser necessariamente ligadas aos nebulosos e relativos bem ou mal. Energia positiva é atração, criação, crescimento, podemos associá-la a conceitos como conforto, paz, calma, proteção. Já a negativa é de dissociação, destruição, relacionável à ira, agressividade, raiva, guerra. Basta inspecionar o portfólio da divindade: uma divindade ligada às artes e ao conhecimento, por exemplo, mesmo totalmente dissociada de moralidade boa ou má (há quem diga que toda boa arte é amoral &#8212; não confundir com imoral, por favor), está ligada a conceitos como criatividade e crescimento &#8212; então que sua imposição de mãos seja curativa e associada à energia positiva. Por outro lado, um paladino da guerra, mesmo lutando do lado dos &#8220;mocinhos&#8221;, está ligado à agressividade, então energia negativa para ele, apenas invertendo o efeito &#8212; seu toque causa dano a criaturas vivas em vez de curá-las. </span></p>
<p><span class="postbody"><em>Aura de Coragem: </em>Outro que pode muito bem permanecer inalterado &#8212; é fruto de uma convicção que um paladino de qualquer deus pode possuir em virtude de seu zelo religioso fanático.</span></p>
<p><span class="postbody"><em>Saúde Divina: </em>Idem. Ficar doente é prejudicial tanto para mocinhos quanto para bandidos. Justifique como &#8220;um corpo mais próximo do estado de divindade, alcançado pela fé&#8221; e seja feliz. Se a divindade estiver associada fortemente a alguma força elemental, pode-se muito bem substituir por Resistência 5 ao elemento apropriado.</span></p>
<p><span class="postbody"><em>Expulsar Mortos-Vivos: </em>O que essa regra nos diz, tematicamente? &#8220;O paladino desse deus se opõe fortemente a esse tipo de criatura&#8221;. Mas não precisa ser necessariamente uma oposição. Primeiro, defina os tipos de criaturas que mais possuem relevância em relação à divindade em questão. Destes, decida (ou deixe o jogador escolher) qual o mais relevante de todos. Defina se a relação com a tal criatura é a de afinidade ou oposição. Pronto, o paladino vai expulsar (oposição) ou fascinar (afinidade) o tipo de criatura. Você já viu isso em alguns domínios clericais, e não há razão para não expandir. A deusa das trevas curte mortos-vivos &#8212; o paladino dela fascina mortos-vivos. O deus da ordem não vai nada com a cara de criaturas &#8220;bagunçadas&#8221; &#8212; ele expulsa aberrações &#8211;, mas o deus do caos as acha bacanas &#8212; ele fascina aberrações. O deus das artes não curte tipos grosseiros e feiosos &#8212; expulsa humanóides monstruosos.</span></p>
<p><span class="postbody"><em>Magias: </em>Não queremos mexer no equilíbrio mecânico, logo, parta da lista inicial, fazendo <em>substituições</em> apropriadas. Um bom lugar para começar a fuçar é nas listas de magias dos domínios clericais da divindade do  paladino.</span></p>
<p><span class="postbody"><em>Remover Doenças: </em>Esse é o mais fácil, já que se trata do efeito de uma magia, e essas possuem um parâmetro em comum: seu nível. <em>Remover doenças</em> é uma magia de 3o. nível, logo, escolha uma magia apropriada de 3o. nível, utilizável o mesmo número de vezes por semana que <em>remover doenças</em> seria. Você pode deixar o jogador escolher uma dentre as magias dos domínios da divindade (eu não deixaria, mas não me levem a sério, porque sou partidário dos mestres tiranos) ou definir uma para cada divindade, podendo até desrespeitar alguns parâmetros &#8212; <em>confusão</em>, como magia divina, é de 4o. círculo, mas seu círculo mais baixo, de bardo, é 3o.; se não vê problemas nisso, é uma boa habilidade similar à magia para paladinos do deus do caos.</span></p>
<p><span class="postbody"><em>Montaria Especial: </em>Essa pode ficar como está, havendo apenas modificações cosméticas &#8212; a montaria especial do paladino de um deus da morte seria um corcel negro &#8212; ou usar outro tipo em vez de Animal (o tipo de criatura que é a montaria) &#8212; a montaria do paladino do deus da morte é um cavalo Morto-Vivo. A única dificuldade é manter o equilíbrio &#8212; nosso cavalo morto-vivo deve ter um número de Dados de Vida que corresponda ao Nível de Desafio de um Animal com o número de Dados de Vida da montaria padrão. Se você não curte a montaria, pode utilizar o <a href="http://www.dot20.com.br/2008/08/01/traducao-do-pathfinder-o-paladino/">vínculo divino do Paladino do Pathfinder</a> &#8212; que fornece uma (baita) melhoria divina para a arma, que pode necessitar apenas de mudanças cosméticas &#8212; a arma vinculada do paladino do deus da destruição emite uma luz arroxeada, de tons frios, por exemplo. </span></p>
<p><span class="postbody"><em>Tendência e Código de Conduta: </em>Ditados pelo que é permitido e proibido para os clérigos da mesma divindade, ora pois.<br />
</span></p>
<p>Como vêem, não há obstáculo real que impeça <em>qualquer</em> divindade de ter seus paladinos &#8212; exceto a rigidez de pensamento ocasionada pelo apego à tradição. Seu cenário é politeísta? Então faça os paladinos se comportarem de acordo. Uma das coisas boas no D&amp;D 3a. edição foi eliminar as restrições de classe e raça, níveis máximos para uma raça em dada classe&#8230; Por que não dar um passo a mais e eliminar restrições supérfluas de tendência? Cavaleiros de armadura brilhante não precisam ser branquinhos, &#8220;celestiais&#8221; e bonzinhos &#8212; uma armadura de metal negro, se bem polida, fica igualmente lustrosa.</p>
<img src="http://www.dot20.com.br/?ak_action=api_record_view&id=965&type=feed" alt=" Para o inferno com os paladinos bonzinhos!"  title="Para o inferno com os paladinos bonzinhos!" />

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		<title>Ignorância dos PJs: uma coisa BOA</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Dec 2008 13:24:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Shido Vicious</dc:creator>
				<category><![CDATA[Opinião]]></category>
		<category><![CDATA[Cenário]]></category>
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<p>Na matéria sobre <a href="http://www.dot20.com.br/2008/12/17/rpg-e-a-mae-natureza-racas/">natureza e raças no RPG</a> houve um comentário acerca de um ponto pertinente: os personagens no mundo de jogo sabem ou não das razões científicas por trás deste ou daquele fenômeno?  Se eu postulo elfos cuja audição capta freqüências além da audição humana, isto é apenas a <em>causa</em> &#8212; na grande maioria dos cenários de fantasia estes elfos não vão anunciar que &#8220;esses humanos têm um espectro limitado de freqüências auditivas&#8221; &#8212; vão dizer que &#8220;esses humanos são meio surdos&#8221;, isto se eles sequer dedicarem tempo para pensar nisto. Na Idade Média, o processo de decomposição tinha diversas implicações sobrenaturais no entendimento das pessoas da época &#8212; mas isto não significa que a decomposição, seu processo em si, ocorresse de forma diferente do que ocorre hoje. Razões científicas, na fantasia, são uma estrutura para dar coesão e verossimilhança aos elementos &#8212; e geralmente vão permanecer escondidas (quão <em>arcano</em>!) para não &#8220;estragar o clima&#8221;. Mas não pense que é apenas a &#8220;árida e sem graça&#8221; ciência que pode estragar as coisas quando exposta: elementos sobrenaturais, quando não recebem os mesmos cuidados, têm efeitos igualmente prejudiciais.</p>
<p><span id="more-645"></span></p>
<p>Uma ocorrência disto, penso eu ser a mais óbvia, são os <em>deuses</em>. Todo cenário os tem, em número variável, nada de pouco usual aqui. O problema está na abordagem de <em>quanto</em> os personagens sabem sobre eles. Um elemento interessante nas religiões é o conceito de fé, de acreditar em algo mesmo tendo evidências inconclusivas ou até mesmo nulas. A maioria dos suplementos sobre o assunto, contudo, mandam a fé para o espaço por uma simples razão &#8212; a abordagem que eu chamo de &#8220;vista de cima&#8221; ou &#8220;externa&#8221;.</p>
<p>As divindades são apresentadas como certas, confirmadíssimas, indubitáveis. &#8220;Fulano, deus de não-sei-o-que, criou tal e tal coisa, fez isso e aquilo&#8221;. Eles vêm até com endereço &#8212; faça uma viagem planar para o &#8220;Plano do Chuchu na Cerca&#8221; e você, se for suficientemente pontual, pode tomar o chá das cinco com ele. Não há dúvida alguma, não há mistério. Um efeito colateral disto é bem conhecido: religiões pobres. Sabe-se até o corte de cabelo preferido do tal deus em suas férias de verão, mas, quando &#8220;descemos&#8221; na hierarquia até os cultos em si, silêncio, vento, bolas de feno rolando e nenhuma informação. Como são as cerimônias? E a estrutura eclesiástica? Que tipos de oração, se isto sequer faz parte do credo, dizem os fiéis? Existe casamento? Se existe, ele segue necessariamente nosso padrão-cristão-monogâmico-mocinho-com-mocinha? Ou os dogmas da tal religião não vêem qualquer objeção entre a união de duas (ou mais) pessoas, independente do sexo? Castidade é virtude? Ou isso não é relevante? Eu poderia ir até amanhã, mas prossigamos.</p>
<p>A abordagem oposta eu chamo de &#8220;vista de baixo&#8221; ou &#8220;interna&#8221;. Nela, foca-se nas questões do parágrafo anterior enquanto a divindade em si fica nebulosa. E nada mais natural &#8212; os personagens do mundo (jogadores inclusive) hão, em suas vidas, ter muito mais contato com as religiões do que com os próprios deuses. Viagens planares, em cenários em que existem, costumam ser magias de nível altíssimo &#8212; e, se você não quiser extrapolar os impactos sociais de uma magia difundida, limitada a pouquíssimos usuários; magias de comunicação divina, por outro lado, estão longe de ser confiáveis &#8212; o que impede de haver no &#8220;outro lado da linha&#8221; um extraplanar ou espírito oportunista fazendo as vezes da divindade com quem se quer comunicar? Se os deuses são incertos, os dogmas são também incertos, passíveis de deformação provindas de debates teológicos e similares. Isso dá espaço para religiões dissidentes e razões consistentes para conflitos religiosos &#8212; afinal, fica bem mais fácil achar que seu deus é o verdadeiro quando não se tem evidência irrefutável sobre nenhum dos outros (ou mesmo do seu, mas sua fé há de dissipar tais dúvidas).</p>
<p>Não é apenas a informação científica, portanto, que pode &#8220;estragar a festa&#8221; &#8212; &#8220;Ah, quer dizer então que a magia não passa de uma perturbação eletromagnética em um nível sub-atômico da matéria? Que sem graça&#8230;&#8221; Um elemento sobrenatural que não seja devidamente  camuflado pode causar a mesmíssima reação &#8212; &#8220;Parem já essa guerra santa, visitei ambos os deuses de vocês (o endereço é esse, se quiserem confirmar, já incluí um pergaminho e viagem planar com um mapa dimensional para que não se percam), eles me explicaram os equívocos em seus pontos de discordância e, adivinhem só, não precisam mais brigar em cima dessas picuinhas!&#8221; Se se quiser mistério, informação demais pode fazer o tiro sair pela culatra, não importa sua natureza.</p>
<p>Já a informação científica, por outro lado, pode existir, desde que suficientemente camuflada. Se você tem a inclinação e a paciência, nada te impede de montar as raças usando imperativos da Evolução &#8212; para adicionar verossimilhança &#8212; e apenas dizer que &#8220;o deus tal as criou&#8221;, se seu cenário tem tal viés criacionista. Só cuidado em como expor isso &#8212; se um texto descritivo e impessoal dizer &#8220;o deus tal criou tal coisa&#8221;, os jogadores vão chiar quando qualquer discrepância, por menor que seja, surgir. Se o parágrafo é atribuído a um teólogo do cenário, ou um &#8220;acredita-se que&#8230;&#8221; é usado, a certeza se esvai e as possibilidades de surpresa se multiplicam. Você entende algo de física quântica e achou interessante usar alguns conceitos em seu sistema de magia &#8212; nada mal, mas não vá tentando enfiar &#8220;enlaçamento quântico&#8221; (<em>quantum entanglement</em>) na goela dos jogadores, o clima vai se dissipar; &#8220;Lei da Similaridade&#8221; soa mais esotérico e faz o serviço (e apenas os conjuradores vão fazer idéia do que seja). Quando você atira uma pedra e ela descreve um parábola, ela vai fazê-lo independentemente de você conhecer o princípio ou não.</p>
<p>Usar conceitos absolutos, irrefutáveis &#8212; sejam científicos ou sobrenaturais &#8211;para descrever o mundo de jogo é como construir um arco: você se utiliza de uma armação de madeira para segurar as partes no lugar, e quando a pedra final é posta, o arco adquire estabilidade e as armações de madeira são retiradas. Você como criador/mestre pode conhecer a armação, mas esconda-a bem dos jogadores. RPG é diversão, e, opinião pessoal, é mais divertido ser surpreendido com algo diferente do que eu imaginava do que um fleumático &#8220;Eu já esperava por isso&#8230;&#8221;</p>
<img src="http://www.dot20.com.br/?ak_action=api_record_view&id=645&type=feed" alt=" Ignorância dos PJs: uma coisa BOA"  title="Ignorância dos PJs: uma coisa BOA" />

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